Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 11 de março de 2011 e está arquivada em Haiml & etc..

Minha filha faz um ano

Até não muito, com a minha idade, meu futuro se previa das seguintes formas: envelhecer morando sozinho, morando com os pais, retirado, refugiado na esbórnia, equilibrado entre a esbórnia e a vida monástica; e ao fim da vida teria olhado para trás e visto apenas uma série de relacionamentos infelizes. Hoje tenho uma esposa. Hoje tenho uma filha, e ela completou um ano. Hoje aquelas opções das primeiras linhas pertencem ao meu eu do passado, e não são mais as imagens do que poderiam ter sido meus prováveis dias vindouros. Meu futuro agora não caminha mais só.
Até pouco tempo éramos dois, de repente, como mágica, algo mais surgiu, alguém que agora também faz barulho aqui em casa, que ouço respirar ao nosso lado, que acorda de carinha feliz ou triste e a quem damos bom-dia e boa-noite, que sai conosco em passeios e até compromissos, que “assiste” à TV e toma seu café conosco. Bebês, antes, eram para mim somente remelentos montinhos de fraldas; hoje, com outro olhar os vejo, com olhos enternecidos descubro-os presentes que a Divindade nos dá para nos tornarmos pessoas melhores.
Um ano ela completou, doze meses apenas, mas aquele bebezinho chorão que parecia não saber o que queria nem para onde ir, já tem traços de moça e agora nos olha e age com uma sabedoria que nos deixa atordoados, que parece já habitá-la há muito. É uma alma, uma energia viva, um espírito que brilha através daquela casquinha ainda tão aparentemente frágil. Que porções antepassadas terá ela juntado em seu quebra-cabeça? Quem espelhará dos que nunca tive a chance de conhecer? Quem, de certa forma, reviverá através dela? Isso é a maravilha do que chamamos vida, da imortalidade da vida.
Confesso que, às vezes, me culpo por dá-la a um mundo que cada vez piora, pois, apesar de eu crer que 2012 não será exatamente como os maias viram em suas profecias, nem como o Roland Emmerich quer em seu filme, percebe-se que o Planeta não está seguindo para algo muito alentador. O que me resta é tentar prepará-la bem para que sobreviva o melhor possível e pedir a Deus e aos anjos bons que ajudem a pavimentar-lhe o caminho com coisas boas e lhe deem sabedoria para reconhecer e aproveitar tais oportunidades. E que meus pecados e meus erros não sejam a ela imputados, mas cobrados apenas de mim.
Mas ainda temos coisas como noites de verão com cheiro de jasmim e outras delícias que, mesmo por poucos instantes que ocorram, fazem viver valer a pena. Enfim, minha filha, o aniversário é teu, porém os desejos são meus: se um dia escreveres algo sobre tua vida, que eu não seja só em tal texto um personagem secundário, e que possas também mirar um pequenino teu com o mesmo terno encanto que me toma quando te observo.

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