Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 18 de março de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

O Serviço Social e o trabalho intramuros

O trabalho do profissional de Serviço Social vai além do que olhos de vulgo podem visualizar, vai além do impossível, pois o possível qualquer pessoa tem condições de fazer. Quando voltamos à atenção para “presídios”, inicia-se uma confusão de ideias, um atropelamento de perguntas e opiniões pré-concebidas, que levam a uma gama de preconceitos e olhares distorcidos, gerando asco e repulsa ao público segregado e –  por que não dizer ? – estigmatizado e/ou párias sociais.
O Presídio Estadual de Taquara – Petaq possui no regime fechado 147 apenados. Desse total, em torno de 80% estão inseridos em ligas laborais, e os demais aguardam a oportunidade de trabalho intramuros. É sine qua non o entendimento de que, no sistema prisional, o trabalho desempenha uma gama de funções que objetivam proporcionar à pessoa segregada a possibilidade de desenvolver alguma atividade laboral produtiva, que funcione não apenas como redutora da pena a ser cumprida, mas que ocupe o tempo ocioso, de direito a remição por dia trabalhado, ensine algum ofício que antes lhe era desconhecido, inicie um processo de trabalho em grupo em que exercite a tolerância com o outro e consigo mesmo, ensine a arte da paciência e receba-se de forma pecuniária pelo trabalho executado.
Em suma, o labor intramuros transforma-se em terapia ocupacional, fator motivacional para mudança de hábitos e lucrativo em todos os sentidos. É óbvio que existem apenados que não aderem ao trabalho intramuros, tratando-se de escolha individual, única e inquestionável, e tal escolha é respeitada in totum pela administração, que procura despertar confiança em seu público alvo, tendo o entendimento segundo Giddens, 2005, p.71, de que: “A confiança tem de ser trabalhada, não pode ser simplesmente pressuposta. Finalmente, um bom relacionamento é aquele isento de poder arbitrário, coerção e violência.” Ainda, segundo Barbosa, 1996, p: 123; “… o ser humano para ser o que é, precisa ultrapassar-se. Esta ultrapassagem é uma violência, esta violência, uma dilaceração. No entanto, dilacerar-se é o que lhe permite descortinar um sentido para sua existência, é o que lhe possibilita reencontrar a si mesmo, reencontrar sua própria unidade.”
E, muitas vezes, esse reencontro acontece quando se sente produtivo e útil em alguma atividade. E, intramuros, a atividade laboral tem essa função entre outras. Nota-se ser extremamente fácil falar e comum ouvir da sociedade civil que: “Preso bom, é preso morto”, “Preso vive bem na cadeia, pois tem cama, comida, advogado e auxílio da saúde (médico, dentista, psicólogo, assistente social), sempre que precisa.”
A pergunta que não quer calar é: Você trocaria sua liberdade para estar no lugar de algum preso? Não precisa responder, apenas reflita com criticidade, nunca esquecendo que tudo podemos, por isso somos responsáveis por tudo o que fazemos. Estar segregado exige um esforço sobre-humano de qualquer pessoa em sã consciência, por ser este espaço permeado de surpresas nem tão agradáveis, mas também de muitas possibilidades de mudanças, sendo sábias as palavras de Frei Susim, quando disse, com muita propriedade e lucidez, que: “Para dominar e manter-se sobre este mar de violência, é necessário perseverar na identidade, manter-se na diferença. Ora, para a criatura humana, segundo a lição do Gênesis, manter-se na diferença é, em 1º lugar, dominar o animal que ronda dentro de si ou a sua porta”.
Diante de todo o exposto, é notório que o trabalho prisional tem toda uma finalidade positiva para com os internos e o exercício de criticidade pelo labor estimulado. E essa finalidade, no espaço prisional do Presídio Estadual de Taquara, é respeitada e contemplada in totum.
Ana Claudia Camilo Porto
Assistente Social da Susepe
Petaq – Presídio Estadual de Taquara/RS

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