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Esta postagem foi publicada em 1 de abril de 2011 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Arrebatado

Do “Meu livro de citações” – A Justiça é realmente falha. Jamais vi um condenado sair de um julgamento sem dizer que o veredicto está errado.

ARREBATADO
Vejo que sou um romântico incurável. Não importa espalhar aos quatro ventos o meu ceticismo. Sempre serei surpreendido por algum acontecimento ou teoria jamais imaginada. Claro, existem coisas das quais não temos conhecimento, pois não somos computadores com grandes bancos de dados, guardando todo o tipo de informações. Mas estou me referindo a fatos comuns, vulgares que só mesmo sendo muito boboca para desconhecer. É o meu caso.
No último final de semana estava eu ainda me refazendo do choque provocado pela história de uma conhecida que ficara apavorada com a ação dos “Iluminatti” – mais uma teoria da conspiração, entre tantas existentes por aí. Então me chega, via televisão, a existência de uma coisa chamada “arrebatamento”.  Aqui entra o meu romantismo. A palavra “arrebatamento”, para mim, sempre foi uma designação romântica para o estado emocional de alguém apaixonado ou enlevado misticamente. Estar arrebatado jamais passou de uma situação emocionalmente maravilhosa. Eis, entretanto, que, segundo a TV Record, descubro minha falha, tanto linguística quanto de conhecimentos religiosos. A tevê veiculou uma reportagem sobre pessoas que abandonaram tudo, a casa, rasgaram seu pouco dinheiro e os documentos, e saíram a caminhar sem destino na busca de uma solução mágica para seus problemas. Esperavam o cumprimento da promessa bíblica de arrebatamento. Queriam ser abduzidos (esta é outra que o trem não pega!). Aqui, aprendi o significado apavorante da palavra. É uma daquelas interpretações obscuras dos termos bíblicos, só decifráveis por quem tem conhecimentos históricos/hagiográficos a mais ou parafusos a menos. Os bons serão levados para o paraíso e os maus são deixados na Terra sofrendo grandes torturas.
A tevê, esquecendo-se de seu imenso poder de persuasão, apimentou o clima, ilustrando a reportagem com imagens de um filme de ficção científica no qual as pessoas simplesmente desaparecem no ar. Pronto! Aqueles que vivem permanentemente com medo de retaliações divinas por qualquer ato seu, passaram a ter mais pavor.
Eu, embora de longe, já envolvido com o caso dos “Iluminatti”, senti o golpe. Droga! É muita coisa para um mês só. Antes fora o terremoto no Japão, acompanhado de maremoto e vazamento de radiação na usina nuclear, um prato cheio para os profetas do horror (aliás, profecia é sempre de horror). Depois alguém se lembrou de 2012, quando tudo deverá acabar (pelo menos é o profetizado pelo filme de hollywood – esquecendo convenientemente o ano 2000; você lembra?). Agora, mais esta!
Os arrebatáveis foram encontrados. De ruim só lhes restará o grande mico pago com sua atitude. Se, de verdade, haveria um arrebatamento, eles não foram escolhidos. Isso significa continuar neste imenso vale de lágrimas. A solução é continuar nadando.
Foi demais para um sujeito tão arrebatado como eu! Quero continuar longe de tanta barafunda.

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