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Esta postagem foi publicada em 15 de abril de 2011 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Palavras

Do “Meu livro de citações” — Era um homem que vivia de lembranças, do passado. Era um historiador!

PALAVRAS

A linguagem falada é uma propriedade humana, talvez a mais importante. Ela é motora de todo o progresso do homem, para o bem ou para o mal. Não me venha com a fala dos animais que conseguem imitar a voz humana. Estou tratando da nossa fala consciente (mesmo quando ela é inconsciente e até inconsequente). Digo isto para não despertar nenhum furor filosófico a respeito das qualidades morais ou éticas dessa capacidade. Refiro-me, apenas, à expressão sonora emitida pelo aparelho fonador humano.
A condição de articular palavras com significado vai muito além da capacidade dos outros animais em termos de expressão. Os animais se comunicam por sons, por atitudes, por cheiros ou por etcétera. Porém o nosso cabedal vocabular nos permite uma amplitude bem maior de comunicação.
Como resultado desta fantástica possibilidade, quase numa decorrência natural, a humanidade inventou a escrita. Se a linguagem falada nos coloca em um patamar mais elevado dentre as criaturas de Deus (a ponto de nos considerarmos Suas máximas criações – vejam a petulância), a linguagem escrita demonstra que, pelo menos entre as criaturas da Terra, nós, realmente, estamos com a bola cheia. Novamente, peço-lhes que se abstenham de reflexões remorsais sobre moralidade e ética. No ponto aqui tratado, o das linguagens, somos o ápice da criação e pronto. Ponto.
Entretanto, é necessário fazer uma grande distinção. Há, entre boa parte da humanidade letrada, a ideia de transformar a escrita numa simples extensão da fala. Isto atrapalha muito o seu ensino! É cada vez mais comum em determinados círculos, os acadêmicos, por exemplo, muito descuido com a colocação daqueles pequenos desenhos, as palavras, sobre sua mídia – antigamente, o papel, e, mais modernamente, a tela do monitor. Com isso, ignoram os sentidos a serem passados aos seus decodificadores, comumente tratados por “leitores”. A escrita não é uma evolução da fala. Muita gente fala e não escreve (os analfabetos) e muita gente escreve e não fala (os surdos). Ambas, fala e escrita, são capacidades do pensamento. A primeira, natural; a segunda, artificialíssima. Na aprendizagem daquela, nada usamos a não ser a convivência com outros de nossa espécie. É uma capacidade inata. Entretanto, para escrever empregamos algo mais do que a simples convivência: precisamos aprender símbolos e regras de que se compõe a escrita e pôr em funcionamento uma grande capacidade de abstração. É uma técnica ensinável. Prova disto é que podemos escrever em língua estrangeira sem saber falar o idioma. Basta aprender o código.
Mas, infelizmente, sei de professor universitário que não sabe redigir dentro das normas mais comezinhas e ainda se vangloria: “Outros fazem por mim; é um trabalho menor”. Por incúria e soberba, entramos num “thriller” do tipo Michael Jackson. Os mortos já não se contentam em se revirar na tumba ao ouvir uma asneira desse quilate. Estão saindo delas para nos assombrar. E, pior, têm conseguido!

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