Incendiários
Do “Meu livro de citações” — Por que existem tantos parafusos nas tampas dos esquifes e por que são tão atarraxados?
Os ocupantes não sairão.
No dia do aniversário de Taquara, depois de ter cruzado com uma “carreteata”, um desfile de carretas (se a palavra não existia, agora eu a oficializo, baseado na popular “carreata” – vi, num jornal, “carreteada”, mas fugiu à etimologia daquela), fui a uma farmácia. Não, não fui à farmácia por ter cruzado com a carreteata. Já tinha saído de casa com a intenção de buscar sabonete líquido. A carreteata foi apenas um acidente de percurso – no bom sentido, é claro. Ainda me emociono com essas manifestações. Gostei de ver.
Meu espanto, agora transmitido a vocês, amados leitores, foi o ouvido no rádio da farmácia. Era um programa evangélico. Até aí, nada de mais, pois nossos democráticos ouvidos devem estar preparados para todo o tipo de discurso e os meu estão. Quando, porém, o locutor identificou a transmissão, quase me caiu a b(*): “Este é o programa ‘Incendiários de Cristo’, comandado pelo Pastor Fulano”.
Foi um soco nos meus critérios. E olha que, apesar de eu parecer muito turrão, são critérios bem ecléticos. Eles, meus critérios, são, como classifiquei, democráticos. “Incendiário”, segundo os dicionários, com pequenas variações, é traduzido como: “próprio para atear fogo, para provocar incêndios (bombas incendiárias); que provoca incêndios voluntariamente (maluco incendiário); Fig. que incentiva as pessoas a se revoltar (ideias incendiárias, político incendiário); Sedicioso; Fig. pessoa que incita revoltas com suas ideias”. Para ninguém me taxar de “incendiário” depois, copiei (Control+C) as definições do dicionário Aulete Eletrônico, e colei (Control+V), eliminando os significados estranhos a este comentário; em todo o caso, todos eles, os significados, falavam em “atear fogo”; podem conferir.
Puxa, Pastor! Seu programa de rádio é um legítimo colocador de lenha na fogueira. Com esse nome, está mais para quem quer ver o circo pegar fogo numa época de tanta violência. É difícil de imaginar uma religião incitando seus fiéis a serem agressivos. Ou estarei enganado a respeito dos valores defendidos pelo cristianismo? Não estou, eu sei! Mas existe muita gente por este mundo de Deus fazendo verdadeiras barbaridades em nome de alguma crença divina, e pela primeira vez me apareceu a coisa de maneira tão explícita e descarada. Pelo menos por aqui. Seria bem interessante conhecer suas razões. Algo tão – digamos – cheio de fogo está mais para propaganda do diabo do que para o pessoal que combate o tinhoso.
A mim parece que, por desconhecimento, as pessoas usam as palavras mais pela sonoridade do que propriamente pelo significado. Com isso, obtêm resultados bastante… incendiários. Deve ser o caso desse programa radiofônico. Extintor nele!


