Do “Meu livro de citações” – Gregor Mendel foi um voyeur que espreitava relações sexuais entre ervilhas. Até escreveu livros sobre isso.
FALANDO DE FUTEBOL
Nesses últimos dias, uma tentativa de agir sobre o idioma português sacudiu a cena jornalística do Rio Grande do Sul. Digo cena jornalística porque é no âmbito das comunicações que as coisas realmente acontecem. E quase um balão de ensaio para lançar um novo produto, seja industrial, comercial ou, como neste caso, legislativo. O deputado comunista Raul Carrion, indignado com o uso – na realidade, abuso – de palavras em idioma estrangeiro em nossos textos diários propôs que fosse feito um patrulhamento legal sobre esse uso.
Os mais achegados às nuances de um texto já estarão imaginando-me contrário ao projeto, devida à palavra patrulhamento. Comumente, ela é usada para ironizar assuntos de ideologia. Mas enganamse. Não sou contra a ideia do deputado de aliviar nosso dia a dia de sua carga linguística alienígena. Mas sou absolutamente contrário à maneira como ele imagina fazer isto. Jamais vai conseguir. É a sina dos comunistas: pensam poder comandar tudo centralizadamente. Criam uma lei para dominar o idioma e pronto, tudo entra nos eixos. Essa turma não aprende.
Entretanto, ele tem razão quanto à filosofia da questão. Basta ler qualquer propaganda para a gente se perder numa mistura de configurações estranhas ao português. Atualmente o idioma interface é o inglês. Se a língua de origem não emprega alfabeto latino na sua escrita, aproveitamos a transliteração inglesa. Um exemplo disso é “shampoo” cuja origem está na Índia. Todos os frascos de sabão para lavar cabelos vêm marcados com a forma inglesa, adaptada do hindustâni.
O grande erro ao manter certas formas originais nas palavras de outro idioma é de ordem fonológica. Como em “shampoo”. Em português, não existe SH; em português, dois O não têm som de U. É melhor xampu. Porém, aqui entra o grande quiproquó. As pessoas têm vergonha de escrever assim ou comprar um produto marcado assim, porque acham mais elegante a forma estrangeira. Isto, carinhas, nenhuma lei vai mudar, só o hábito.
Por outro lado, nada impedirá a marcha inexorável da ampliação lexical. Se a palavra for boa para determinada função, fatalmente será adotada, não importa sua origem. Qual, então, a solução? Deputado, eu apenas aplico nosso sistema ortográfico, o famoso gênio da língua, e aportugueso esses termos. É fácil! Ensino, também, os meus alunos a imitar-me. Mas, se quiserem manter o original, devem destacá-lo de alguma forma, ou com aspas ou com itálico, aliás, como recomendado pelas normas ortográficas. Só precisa saber reconhecer a palavra estrangeira. Aí, o buraco é mais embaixo. Muita gente, que usa palavra escrita como matériaprima, está bem por fora dessas coisas.
E o futebol do título, onde entra? Se o tal gênio da língua não tivesse saído da garrafa, ainda estaríamos grafando “football”. Citando o manual de redação da PUCRS, “para escrever em português, basta um pouco de coragem”.


