Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 27 de maio de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Teus ensinamentos

Sabe aquele tipo de pessoa que acredita na tua capacidade e incentiva as tuas escolhas quando nem mesmo tu pões tanta fé em ti? Então, eu sei. Meu falecido tio, Sérgio – mais conhecido como Fosca – sempre conversava comigo como um empresário esportivo que investe no seu atleta. Ele lia todos os meus textos quando eram publicados. Sempre os elogiava e me incentivava a continuar, afinal, “alguém precisa dizer o que tem de errado nessa cidade”, dizia. Eu, que não lido bem com elogios e altas doses de confiança em mim, agradecia meio tímida ao mesmo tempo em que pensava: “eu só escrevi a minha opinião, não é pra tanto”. Pra ele era. Não sei o motivo, mas tenho a leve impressão de que as pessoas depositam muita esperança em mim, e isso não é legal. Ter a obrigação de corresponder com as expectativas alheias é desmotivante. Porém, eu nunca senti uma exigência da parte dele em eu ser cada vez melhor, embora fosse isso que ele desejasse. “É isso aí, garota”, dizia ele com o polegar levantado em sinal confiante.
O importante era não regredir. Afinal, para ele, eu tinha o futuro certo. Aquele futuro bonito que um dia ele quis ter e não alcançou. Aquele futuro que a gente nem deve planejar porque ninguém sabe o dia de amanhã. Mas ele planejava. Era sonhador. A pessoa mais sonhadora que conheci. Toda vez que me via, comentava algo sobre a minha faculdade e que estava aguardando a minha formatura. Inclusive na última conversa que tivemos o assunto era quando e onde ela seria. Será no final do ano e ele, infelizmente, não irá. Planos. Benditos planos incompletos. Meu tio passava mais empolgação para a minha colação de grau do que eu. Talvez justamente por ele depositar mais esperança na minha possível futura e brilhante carreira no jornalismo do que eu. Na verdade, eu há muito tempo não tenho tido muito entusiasmo diante dessa circunstância acadêmico-profissional. Muito por ver tanta gente sem estudo se dando bem, e tanta gente estudiosa se dando mal porque essa gente sem estudo é mais barata para quem contrata e faz o serviço mesmo que seja meia-boca.
Meu tio sempre acreditou em mim e nunca me questionou sobre por que fazer jornalismo. Uma das poucas pessoas que nunca me disse “não vale a pena”. Para ele, tudo sempre valia a pena, ainda mais pra mim, que sou jovem. Eu só me dou conta desse detalhe na personalidade dele agora, porque, quando alguém vai embora para nunca mais voltar, a gente que lamenta começa a pensar sobre o que esse alguém deixou aqui. Ele me deixou um jogo de dardos que tenho atrás da porta do meu quarto. Ele que me ensinou a jogá-lo. E sobre jogos ele quis me ensinar o espírito da competição; de ganhar sempre. Mas eu não quis. Alguém tem que perder e pode ser eu. Esse é o espírito de competição adequado. Se eu pudesse ter ensinado algo a ele, seria lidar bem com perdas. Apenas nos jogos, porque na vida a gente deve aprender sozinho. O mais importante da partida dele foi que ele me deixou pensando. Pensando que as pessoas leem meus textos, já que umas quantas no seu velório me disseram que os leem. Pensando que a vida, que já é curta, pode ser interrompida antes do aceitável. Pensando que eu vou ter que ser mais forte do que já sou para enfrentar todas as perdas de jogos e da vida. Eu ainda vou perder muita gente que acredita em mim. E é bom que eu aprenda a ter essa mesma fé antes que todos partam; antes que eu parta. Mas o principal, em vida ele me ensinou o que eu aprendi postumamente: tudo vale a pena.
Bruna Foscarini
Acadêmica de Jornalismo

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