O velho casarão, outrora imponente, jazia agora em destroços diante do meu pesar. Sucumbiu ante o atual proprietário por motivos óbvios. Parte da infância e adolescência correndo os olhos por sua biblioteca, escadarias, sótão e gramados imensos agora só em escassas lembranças. Ao iniciar um minucioso exame do passado, pesadas caixas de som despejam um caos sonoro. Divagações ébrias sobrepostas por camadas nada sutis de microfonia adornam uma melodia agridoce, que auxiliam na busca por detalhes remotos quase esquecidos. O sussurro denso, quase espectral do Jesus and Mary Chain é fundamental. O elemento alternativo interessa só a mim. O superficial e momentâneo parece ter ficado naquela época em que as coisas pareciam ser mais simples e inocentes. Entre a galera, tudo era motivo pra ficarem horas em debates ferrenhos que não levavam a nada. Desde uma inocente sessão de matinê no Cine Cruzeiro, ou um capítulo qualquer de Roque Santeiro. A velha pista de Skate do GEU não se furtava em virar um ralador de joelhos e cotovelos. Mesmo uma sucessão de quedas violentas, era logo seguida por risadas nervosas e triunfantes. Já que não era qualquer um “munido” de loucura o bastante que se habilitava a encarar aquele poço em dias de chuva. A inércia e o comodismo eram para os “lókis”. Nem mesmo o ciclo comum de aborrecimentos como pegar recuperação ou não pegar as gurias não incomodavam. O negócio era estar entre a galera. Mas tudo passa. Herbert Viana já cantava: Os livros na estante, já não têm tanta importância. Comparações e metáforas engatilhadas pela visão do casarão que parecia agonizar ali no chão. Suas escadas conduziam agora para um amontoado de entulhos e escombros de um mundo de recordações, um quadro vivo… dentro do coração.
Marcio Renck
Esta postagem foi publicada em 10 de junho de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.


