De vez em quando eu ainda choro. Choro quando, por exemplo, me deparo com uma foto ou noticia de um pequeno infante tão cedo retirado deste mundo. É então que nenhuma teoria metafísica que pretende justificar e dar sentido a tais tão antecipadas partidas consegue calar o meu desconforto. Essa coisa de ter que pagar por erros de outras vidas, de que chegou a hora, e essa determinada ou não por força superior, não me calam, não me conformam, mesmo que a partida de tais pequenos entes tenha sido sem dor nem tragédia. E haverá partidas sem dor ou tragédia?
Lágrimas vêm quando me deparo com rostinhos ainda tão jovens estampando necrológicos de jornais, é a infelicidade lembrando-nos do quanto pode ser impiedosa e inevitável. Perturbador também é de repente ver-se na ala cemiterial das pequenas almas. Aqueles miúdos túmulos, às vezes só uma cruzinha, dão uma tristeza, um bambolear nas pernas. E quando as frias e indiferentes pedras estão incrustadas com fotinhos? Não entendemos: cuidávamos tanto, estávamos sempre atrás, sempre atentos, mesmo assim o augúrio é uma sagaz ratazana a espreita que sabe tão bem ocultar-se de nosso controle, contornar nossos cuidados e ignorar nossas preocupações e então levar nossos pequeninos que nem ainda sabiam a que vieram.
Pesa o coração também os ver incompletos sobre o mundo, ou quando mal saem da mãe e já lhes são necessárias mil e uma intervenções médicas. Em muitos casos a culpa disso é dos genitores, mas há outras razões, sendo a própria Natureza nem sempre tão perfeita assim. E por tudo isso dá vontade de ser Deus. De novo justificam com “o ter que pagar por pecados/erros de outras vidas”. Se é preciso pagar por coisas de outras vidas, por que não é automático nos tornarmos conscientes disso, mas é preciso regressões, mensagens do além, e até morrer, para saber qual a nossa dívida? E se não sabemos, não temos resposta disso estando conscientes, como uma criança deficiente saberá que está a cumprir uma pena? Qual a validade de um existir assim para ela?
Uma família foi a um evento num barco muito requintado, que nunca havia tido problemas. Tal barco afundou, o pai perdeu-se dos familiares, em desespero os procurou, o filho de pouco meses, perdeu-o afogado. Diante de mim o rostinho de Davi, pouco mais de um ano, se abre como uma pequena flor no sufocante anúncio de sua ida, próximo a ele, o bebê morto engasgado e a pequenina sufocada no carro; noutra publicação, mesmo dia, Rafaela, 4 anos, baleada na nuca por uma vingança alheia. E continuam a ir-se os pequeninos, adormecendo cedo demais para os que os amam, roubados pelas mais inclementes maneiras e eu tento entender a razão.
Esta postagem foi publicada em 17 de junho de 2011 e está arquivada em Haiml & etc..


