Do meu tuíter – Se corrigir a escrita é “preconceito linguístico”, corrigir a pobreza é “preconceito econômico”?
E agora, “os homem”
Talvez poucos tenham notado, mas eu sou um sujeito moderninho, em constante renovação, apesar de já estar na sétima década de vida. E, dentro dessa atualização, esperada num “moderninho”, considero aposentado o “Meu livro de citações”, marca de abertura das 155 crônicas publicadas desde o lançamento da coluna lá em 2005. Mas não abandonei a velha mania de escrever pensamentos. Apenas mudei para um dos símbolos do modernismo: o tuíter. Assim, aportuguesado, como convém para quem escreve defendendo o emprego da língua de Camões, sem se fechar às influências provindas de idiomas alienígenos.
Nos textos anteriores, sempre cuidei para não ligar a citação de abertura ao assunto tratado na crônica. Hoje, no entanto, rompo essa conduta e faço a conexão. É que ainda está vivo o assunto dos “livro patrocinado” pelo MEC, apresentando uma salada sem-vergonha de língua falada com língua escrita, segundo a ótica de alguns mestres-cucas delirantes, doutores em língua portuguesa nas horas vagas. A gororoba continua fermentando e causando uma grande cólica, pois sua digestão é extremamente difícil.
No meu caso, sem querer voltar ao mesmo prato, descobri nova comidinha indigesta. O restaurante não mudou, é o Ministério de Educação, porém o cozinheiro é outro. Estava eu estudando o livro Semântica para a educação básica, de Celso Ferrarezi Jr. (mais um), quando me deparei com “os homem estudioso”, página 53, e o aviso que isso “não é ‘pecado’”. Claro, não é pecado, se a coisa for olhada pelo lado da violação de algum preceito religioso. Entretanto, se olharmos pela conotação de erro, é pecado sim.
Na obra, com infinito afeto de parte do autor, o professor/leitor é instado a alertar seus alunos que o não emprego da língua formal poderia causar alguma interferência “na realização de objetivos pessoais”. É uma situação bem estranha, pois há orientação de não explicar qual seria a forma aceitável de escrita/fala. A língua formal é sempre apresentada como o produto de uma conspiração com o cruel objetivo de esmagar uma abençoada cultura popular. Ou seja, o autor sugere que o professor, em vez de prevenir um possível transtorno futuro, ensinando como evitá-lo, deve lançar fora a preciosa oportunidade em nome de uma estupidez coitadista. Esses linguistas sempre são muito afetuosos, seguindo a pedagogia de luta contra um imaginado movimento opressor sobre os coitadinhos.
Como está escrito no tuíte de abertura, os cozinheiros do MEC ainda não se decidiram. Eles imaginam um cenário de conto de fadas com fartura e riqueza – o que é o objetivo de toda a sociedade –, mas sem alterações nos velhos padrões linguísticos. Esquecem que a simples alfabetização (simples?) já é um desrespeito à romântica linguagem natural. São uns preconceituosos linguísticos!


