Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 5 de agosto de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

O ouro e as batatas

Em tempos de internet via “qualquer eletrodoméstico”, algumas notícias contrastam com o avanço tecnológico e acabam passando quase despercebidas. Comunidades perdidas do Vale do Javari, no Amazonas, sobrevivem imaculadas no que ainda lhes resta de floresta. Cerca de 150 indivíduos, localizados recentemente por fotos de satélites, vivem no maior complexo de povos isolados do mundo. Por enquanto, já que o avanço desenfreado da exploração madeireira está contribuindo de maneira acelerada para seu extermínio sistemático. Muito em breve cessarão o ruído das serras elétricas, pois só restarão queimadas e desertos. Assim caminha a humanidade, de forma passiva e omissa, assistindo a tudo na comodidade de suas casas. Triste ciclo com final previsível. Nada muito diferente do passado, quando o colonialismo presenteou os nativos das Américas, em sua quase totalidade, com escravidão, tráfico, e povos inteiros dizimados juntamente com suas culturas.
Depois de massacrar os Astecas, Cortez influenciou Pizarro, que tomou os Andes. Maneira equivocada e nada perspicaz de invasão e pilhagem. A regra vigente na busca por informações sobre ouro e prata, era a tortura, pois não interessava como cortavam e moviam pedras enormes e, ainda por cima, as uniam com uma liga de metal. Conhecimento astronômico e matemático? Decidiram queimar de uma vez só tais coisas profanas. Somente tinham olhos para o ouro. As batatas vieram de brinde. Originária dos Andes e levada para a Europa pelos espanhóis, a batata se tornou um dos vegetais mais utilizados na alimentação em todo mundo. Aqui não foi muito diferente. Alguns colonizadores, para conseguir mais terras, resolveram “presentear” os índios com roupas infectadas, o que causou um verdadeiro genocídio nas aldeias.
Quando o assunto envolve lucro, a humanidade parece ser acometida por um surto global de aversão ao raciocínio, pois a retirada da cobertura vegetal expõe o solo e agrava o processo de desertificação, acabando por inviabilizar a agricultura. As terras indígenas já demarcadas estão encolhendo, pois sofrem com seguidas invasões, como a ocupação ilegal para habitação e até mesmo sua utilização em projetos governamentais, tais como: construção de estradas, represas, vias férreas, tubulações de gás e petróleo, entre outros. Enquanto isso, os incautos e verdadeiros proprietários destas terras sucumbem indefesos diante de avanços inevitáveis da sociedade. Devendo, em breve, figurar somente em fotos, livros e o seu famigerado 19 de abril.
Marcio Renck

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