Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 28 de outubro de 2011 e está arquivada em Haiml & etc..

Sobre crianças e professores

Para quem acha que o mundo já perdeu a magia, já não há nele mais inocência, que dele evaporou-se a aura de divino, tenho a prova do contrário. Tenho a prova bem aqui, na minha frente, melhor dizendo, ao meu redor.
Descrevê-la? Em tais horas seria preciso que eu fosse um pintor, daqueles dos tempos clássicos, para poder expressá-la em tela; não sou bom em descrições e sempre achei que o descrever de alguém, ou de uma personagem, mesmo que feito pela mão de um dos mais supremos mestres literários, nunca é capaz de fazer o leitor enxergar exatamente as mesmas feições vistas ou imaginadas por quem as descreveu.
Agora, através dela, de tal prova, tenho a definitiva certeza de que o maravilhoso não se foi, que ainda brilha e ilumina e traz magnitude a esta terra tão magoada. Ele vem a mim através de minha filha, minha menina de quase dois anos, minha visão de sonhos. Ela me faz ver este maravilhoso todos os dias, mesmo quando tenho que a deixar, ainda adormecida, anjo a sonhar com anjos; anjo protegido, em suspiro espero, por outros anjos. E me vou com a ideia de que a arte se fez carne, e harmonizou-a entre o barroco e os traços dos cartoons de Charles Schultz.
Mas há os dias em que tenho o bom direito de vê-la despertar sob sua desgrenhada jubinha roqueira, que se enrosca mais ainda quando está pra chuva, e já no chão como um pequeno fauno que tênis gorduchos e calças bombachudas lhe fazem parecer ao andar, seus olhos azuis arregalados e quase maiores que seu rostinho no qual surgem os mais divertidos esgares de espevitado duende. E já lhe sopram ares de moça, daquelas de antigamente, uma senhorita que, mesmo ainda tão pequenina às vezes me fulmina como um exterminador do futuro (I’ll be back!), ou me dá os olhares que o Gato de Botas (do Shrek) faz, ou me mira em contemplações que soam profundas.
Agora ela veste uma blusinha rosa de mangas curtas, nas costas desenhadas duas grandes asas de fada, há babados verdes, um em cada manga, e eu tenho a impressão que de repente ela vai mesmo levantar vôo pela casa. Seus braçinhos me pedem abraço, sua mãozinha guardo dentro da minha e uma tranqüilidade e uma limpidez me tomam, e as tortuosidades todas se vão.
Todas as crianças, sem exceção, trazem uma porção de encanto, da dimensão que não se foi, a da fantasia, a do maravilhoso, que vem lá das terras do pirilimpimpim, dos países de Carrol, das doçuras anárquicas da fábrica de chocolates; enfim, e enquanto houver alguém capaz de perceber, e compreender isso, haverá professores. Dedicado a todas “profes” que tem segurado a mão de minha filha pela vida.

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