Do meu tuíter @Plinio_Zingano – A “melhor idade”? Fala sério! Bota otimismo nisso!
NO REINO DA DINAMARCA
Estou lendo um livro sobre redação e argumentos. Uma das suas teses é a de que deveríamos ser muito criteriosos ao usar citações em nossos textos. Não deveríamos, por exemplo, usá-las em excesso. Há uma tendência em fazer isto, principalmente, quando encontramos outros argumentos pertinentes àquilo que queremos provar. E é difícil não achar alguém que já não tenha chegado a conclusões parecidas. Vemos esta tendência nos trabalhos universitários. Na realidade, os estudantes são levados às citações por um clima ambíguo. É a insegurança de expor seus pensamentos e a falta de estímulo dos professores. Esses, querendo ver o aluno aprendendo determinado conteúdo, resistem em aceitar ideias diferentes, às vezes uma releitura daquilo ensinado. Apesar de tudo, uma ou outra citação dá um colorido às nossas manifestações textuais. São os argumentos de autoridade. Por isto, o título de hoje. Fui buscar o sempre presente William Shakespeare, na peça Hamlet, Ato I, Cena IV: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Mas é tão-somente para ilustrar o comentário. Qualquer semelhança é blá, blá, blá…
Diariamente, temos lido nos jornais e revistas, e visto na televisão alguma notícia relativa aos maus atos praticados contra os bens públicos, principalmente, pelos próprios agentes públicos. Até esse ponto, embora não seja uma coisa boa de noticiar, está dentro dos conformes, é notícia. Porém, causa espanto grande parte das anormalidades ser investigada não pela polícia, mas pela imprensa, o tal de jornalismo investigativo. Não, não estou propondo o fim dessa prática jornalística. Estou é afirmando que quem deve fazer as investigações envolvendo desvios infringentes à lei são os órgãos competentes.
Vocês não ficam mal impressionados quando essa transferência de responsabilidade se torna tão evidente? As revistas Veja e Isto É, e outros grandes veículos de comunicação, trazem retumbantes manchetes de escândalos nos altos escalões dos governos. Como, pergunto, como pode alguém com representatividade escapar dos olhos da ética e burlar a boa-fé da população sem despertar a desconfiança dos responsáveis pelo controle legal dos trabalhos? A polícia não descobre, mas a imprensa sim!
Vamos lá, claro, os tiras sabem de todas as safadezas, mas ficam imprensados e imobilizados pelas firulas legais e interesses dos “grandões” (jargão de Olívio Dutra), sem conseguir levar as investigações adiante. A coisa só engata quando entram em cena os interesses ainda maiores dos conglomerados de comunicação – neste caso, perfeitos para a verdade – e a sujeira vem a público. Então todos prestam atenção e tentam dar explicações.
Não posso crer que um repórter, apesar de muita sagacidade e disposição, consiga coligir provas em quantidade superior à do aparato legal de investigação. Se isso é verdade, tristeza! Por enquanto, na iminência do abatimento de mais um ministro – estou escrevendo na quarta-feira – precisamos rever os conceitos para aparelhar melhor a polícia.
Entretanto, enquanto esse dia não chegar (o dos novos conceitos, não a queda do ministro), vamos continuar lembrando a Dinamarca. E não vai ser pela boa organização social daquele país. Vai ser por motivos, digamos, mais shakespearianos.


