Mulheres de areia
Na última vez que ali entrei ainda reprisava O Clone. Quase sempre era mais ou menos nesse horário que eu conseguia dar uma passada pelo lugar, quando a TV, dependurada no alto do canto de uma parede, exibia à tarde uma novela antiga que já passara à noite.
Na última vez que lá estive, pedi suco de melancia e bolo. Achava o bolo do lugar um dos melhores, senão o melhor da cidade. Sou louco por bolos. Torta não. Com torta até acostumei. Ah, minha vovó e os deliciosos bolos à espera de nossa visita ou não.
Quem me atendeu, da última vez em que lá fui, foi a moça pequena, a moça alta não estava. Não sabia os nomes delas, mas eram irmãs com certeza; rostos bem parecidos, a cor da pele e até o corte dos cabelos, diferenciadas apenas pela altura. Atendiam sorridentes e gentis. Mesmo sendo quase costumeiro freguês, me deixavam até pagar depois, se estava sem dinheiro na hora. Conversávamos pouco, quase sempre sobre o clima. Nunca indaguei do parentesco delas, mas questionei sobre os bolos “quem os fazia?.” Elas mesmas eram as autoras daqueles a quem eu dedicava um tempinho para saborear.
O Café da Cidade ocupava um antigo prédio, histórico mesmo, estilão clássico, que já fora muitas coisas. Era sossegado, asseado e nele eu também ia para descansar as muitas sacolas que às vezes trazia do centro em caminho para casa.
Então algo que há tempos parecia distante e esquecido voltou, voltou e sangrou brutalmente a região central, e fez novamente os cidadãos estremecerem por se darem conta de que ainda é possível macular nossas tradicionais ruas.
A mais baixa das irmãs, seu nome só vim a descobrir na repercussão do fato, pelo povo e a imprensa em polvorosa, não me atenderá mais, nem a ninguém: uma freguesa que quase todos os dias cedo fazia seu lanche no local, no que era para lhe ser mais um comum início de uma manhã de sextafeira, achou-a caída, morta, assassinada.
Nenhuma testemunha viu o crime ou o criminoso, nenhuma marca de roubo havia. Nenhum grito de sua morte foi ouvido. E terá ela, em seus minutos finais, conhecido o torpe rosto do enlouquecido algoz que lhe tirou a vida? Não houve câmeras para nos contar a verdade.
O bar em que estou agora é outro; o bolo é bom, mas não é o mesmo e pela TV presa no alto e no centro de uma parede vislumbro pedaços da nova novela da tarde, Mulheres de Areia. E é triste e assustador pensar que no fundo é o que todos somos, personagens de frágil areia, sujeitos a sermos derrubados a qualquer instante por marés traiçoeiras, insanas, desgovernadas e impostas a nós por roteiros injustos e mal-escritos.



