Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 9 de dezembro de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Tardes de outono

Outono de 1987. Adolescência reclusa. Avesso a todo tipo de aglomeração e badalação. A fase era aquela em que o mundo era o meu quarto. Tudo que precisava estava ali, até mesmo um amor platônico, que discretamente seguia os passos pelas janelas do velho casarão. Pilhas de discos, livros, gibis e revistas disputavam espaço no quarto com duas janelas. Impossível saber a cor da parede, tamanha a quantidade de pôsteres sobrepostos de filmes e grupos musicais desconhecidos pela maioria.
Época em que a música vinha em primeiro lugar. Aproximava as pessoas. A troca de fitas cassete era um passatempo constante entre a gurizada. Ao menos eram mais baratas que os discos. Sem mencionar aqueles importados, literalmente coisa de outro mundo. Guitarra então, só a invisível, que dedilhava com maestria para platéias imaginárias. Sempre acompanhado de grunhidos para imitar o solo. Muita coisa interessante acabava ficando de fora da maioria das rádios. Mesmo a programação musical sendo mais volátil do que as atuais. O sistema de jabá sempre objetiva o lucro em detrimento da qualidade.
A chuva fina e o vento traziam consigo uma tristeza indefinida. De repente, um som de guitarra com distorção (algo de outro mundo na época) ecoou pela vizinhança. A música era do grupo baiano Camisa de Vênus, que só eu e uns colegas imaginávamos conhecer. Como podia aquilo? No sábado seguinte foi a mesma coisa. Após identificar o local, fui logo conferir a origem daquele som. Chegando lá, atraí olhares curiosos, pois ainda não ostentava uma vasta cabeleira como a maioria deles. Eram quatro. O vocal gritado, com a bateria sendo espancada e a guitarra e baixo no talo, eram um deleite sonoro. Ao menos para mim. Os vizinhos achavam, é claro, um caos infernal. No mesmo instante me tornei fã número um, pois não faltava em nenhum dos “ensaios”. Entre covers e composições próprias, aquela gurizada mandava ver na barulheira todas as tardes de sábado daquele gélido outono.
Até que um dia não apareceram mais. Como folhas secas pelo chão, tiveram uma trajetória efêmera. Daquele momento em diante as tardes de sábado ficaram mais silenciosas. Restaram as recordações daquele período fértil da música feita aqui no Sul e no resto do País. Entre minha coleção de discos, faltou o deles. O espaço reservado entre os discos dos Cascavelletes e Replicantes seguiu vago. Deixo aqui minha singela homenagem a uma das primeiras bandas de rock surgida em Taquara, que ressaltava a grafia errada como forma de protesto: Túlipa.
Marcio Renck

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