A corredora Andréia Henssler, de Igrejinha, entrou para a história do Mountain Do ao sagrar-se como vencedora da primeira edição da Maratona desta modalidade radical disputada no árido deserto do Atacama, no norte do Chile. Ela levou o tempo de quatro horas, 14 minutos e nove segundos para percorrer os 42 quilômetros da prova, passando por obstáculos como a cordilheira de sal, com cinco quilômetros de asfalto, 21 de estrada de terra, dois quilômetros de duna e 14 de terreno plano entre cânions nos vale da Lua e da Morte.
Relato de Andréia Henssler, vencedora da Maratona Mountain Do no Deserto do Atacama, no Chile:
“Manhã de domingo, dia 29 de janeiro de 2012, San Pedro de Atacama, acordar mais cedinho e se preparar para a maratona do Montain do.
Adrenalina ao acordar, um café da manhã no hotel, (banana, sanduíche e suco), coração já batendo um pouco mais forte que o normal.
Tênis no pé, GPS no punho, (medidor de quilometragem e velocidade horária), marcação, numeral na cintura, um belo número 16, mp3 no ouvido, protetor solar, e muito, uma viseirinha na cabeça, e uma vontade enorme de encarar os 42km, no deserto mais árido do mundo.
O relógio marcando 6h50min. Saída do hotel em direção a uma praça muito simpática no centrinho da cidade.
Chip (marcador do tempo da prova) no pé, e uma “muvuca” de gente para todos os lados, umas 500 pessoas entre corredores e amigos e simpatizantes do Montain Do, som alto, o locutor incentivando o grande momento da larga.
Me posicionei em um lugar mais a frente, para ter um pouco mais de tranquilidade na hora da largada. 5… 4… 3… 2… 1. É dada a largada do grande desafio, liguei o GPS e saí em alguns passos tímidos, mas fortes, no meio de tanta gente, pois os 5km e os 21km largavam junto e um pouco mais a frente se dividiam no trajeto.
Os 5km seguiam a frente, onde minha grande amiga Clarines Costantin estava a fazer bonito, os 21 e 42km para a esquerda, e nesse momento vi que estava me sentindo muito bem, a altitude não havia feito nada de diferente no meu corpo. Aumentei as minhas passadas e tomei a decisão de iniciar uma corrida forte, estava no primeiro pelotão, e a frente de quem iria fazer os 21km.
As indicações da prova, sempre marcas de 5 em 5km, vinham passando com muita facilidade por mim. Na última divisão, 21 para direita e os 42 seguindo reto, um corredor me falou, tu és a primeira mulher dos 42km, dei um sorriso amarelinho e disse a ele, não… não, tem um pelotão enorme ai na frente, mas segui firme e sorrindo. A paisagem começa a mudar, o Vale de La Luna, chega e a primeira parte do perrengue começa. O lugar é quase indescritível, um vale, uma espécie de caniong, com areia aos pés e montanhas de pedras com uma terra vermelha dos dois lados, e cavernas .
Passei por ali, firme a cada passada, pegamos um dunão de areia à frente, e saímos no km 15, onde era um bate e volta, e ali então eu cruzei com os primeiros colocados da prova, eu indo e eles já voltando. Cruzei com um grande amigo, Giordio Rabolini e ele gritou, “vai Déia tu és a primeira mulher”, e eu realmente não havia encontrado nenhuma até chegar ao final de uma descida para retornar subindo. Fiquei feliz e confiante, pois cruzei com a primeira mulher realmente lá em cima, nesse momento eu disse e decidi que a prova era minha. É claro que já havia dito isso muitas vezes para mim, mesmo antes da prova, vim para Atacama com um objetivo, o de ganhar a prova, mas sempre lembrando que eu não era única a desejar esse feito, e sabendo que outras garotas assim como eu haviam se preparado.
Tive que tomar a decisão de seguir correndo firme e forte, mas com juízo, pois haveriam muitos e muitos quilômetros a frente. Entramos no Vale da Muerte e me senti confiante, a cada passada, pois a dificuldade do terreno aumentava e eu me sentia muito bem.
O resultado final foi encher o peito e ser a primeira mulher a cruzar a linha de chegada, um sorriso no coração, uma bandeira brasileira à mão e lágrima na face, foi o cenário dessa grande conquista, ser a vencedora da primeira maratona do Montain Do no deserto mais árido do mundo.
Nessa hora um orgulho enorme em ser uma cidadã igrejinhense, uma gaúcha e brasileira.
Clarines Costantim, chegou em terceiro lugar nos 5km fazendo um lindo pódio também.
Duas lagartixas no deserto do Atacama, correm, se divertem, e tem o privilégio de chegar no pódio de uma grande corrida.”


