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Esta postagem foi publicada em 16 de março de 2012 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Apocalípticos

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Se “nascemos entre fezes e urina” (segundo Santo Agostinho, doutor da Igreja, inventor do Pecado Original),
por que tanta vaidade?

APOCALÍPTICOS

Na minha infância/adolescência, na década de 1950, uma das maiores preocupações pedagógicas – embora ainda não com este nome, acho – era a leitura de revistas em quadrinhos. Quem permitisse esse estranho hábito a seus filhos, era visto como um ser desalmado, pernicioso ao bom desenvolvimento da sociedade.
Meu pai cometia o crime. Eu tinha uma caixa abarrotada de gibis. Enquanto jornais, revistas e Seleções do Reader’s Digest invectivavam, eu lia. Claro que não fazia em protesto ou por birra. Apenas era divertido. Nem meus pais eram os bandidões sugeridos pelos expertos. Ao contrário, seu Henrique e dona Delta eram dureza com este seu escritor (gostaria de acrescentar “preferido”, mas, vá lá, tudo bem!).
Assim tem sido com todas as mudanças de comportamento, principalmente as motivadas por inovações tecnológicas. Elas provocam reação. Na década de 1960, a vilã era a calculadora. Escolas não as aceitavam. Hoje, são vistas com mais condescendência. Pensando bem, se um aluno não pode usar a calculadora, por representar ignorância em relação à tabuada, também não deveria poder usar o dicionário, por desconhecimento de como se escrevem certas palavras, além dos seus significados. Eu, por exemplo, sempre uso o dicionário. Ainda há pouco o consultei para ver a grafia correta de “condescendência”. Tinha esquecido o “s”.
Outro vilão foi o telefone celular. Um dia o critiquei, mas me envergonhei e me penitenciei aqui. Admito que foi um ato falho. A vida se modificou graças a esse aparelho. Para o bem e para o mal. Mais para o bem, porque há mais pessoas do bem.
Os gibis de hoje são as redes sociais no computador. Jornais, revistas, rádios e televisões (a Seleções do Reader’s Digest já não tem tanta importância) e autoridades estão sempre alertando os pais e os educadores sobre o mal de um adolescente ficar horas trancado no quarto, durante a tarde ou até a madrugada, diante do computador. Interessante que ainda não li nada sobre quem fica horas trancado no quarto, durante a tarde ou até a madrugada, lendo um livro. Aprender ou não aprender, acontece tanto com os livros quanto com o computador.
A ideia de que as coisas do passado eram melhores nos leva à insanidade de censurar. Se o passado fosse melhor em termos absolutos, eu não poderia ser lido agora: não existiria a escrita. Ela própria foi censurada, por ninguém menos do que o grande Sócrates.
Gostar do passado (a Idade Média me fascina), ter antiguidades em casa, é somente estilo de vida. Chama-se cultura. Por exemplo, o programa em que escrevo este artigo imita o som de máquina de datilografia. Nem por isto penso em abandonar o computador. O moderno é muito melhor.
Continuo lendo gibi e uso o Facebook. Para ser mau, eu não precisaria de nenhum deles. Bastariam maus instintos!

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