Espiar a vida dos outros é quase um fetiche do ser humano. Mais do que curiosidade, é a vontade de saber o que está acontecendo, o que o outro está fazendo ou deixando de fazer, com quem está saindo, a que horas chegou em casa, e aí vai uma infinidade de argumentos que justificam, a meu ver, única e exclusivamente a vontade de falar da vida dos outros, de xeretar a alegria ou a tristeza alheia, como forma de ignorar a si mesmo, de fugir de suas próprias angústias e prazeres.
Acho engraçado a intimidade que certas pessoas demonstram na tentativa de querer saber algo mais sobre a vida dos outros para poder ter o que falar na roda de chimarrão ou no boteco da esquina. Saiu com quem? O que aconteceu ontem à noite? Ouviram os gemidos no quarto ao lado? Separou? Casou? Morreu?
Hoje até é mais fácil saber de tudo (ou quase tudo) via Facebook, já que todo mundo está ali para bisbilhotar a vida alheia, de alguma maneira, mesmo. A rede social mais acessada do mundo se assemelha a um buraco da fechadura por onde todos podem espiar à vontade. Do lado de lá da porta, as cenas se alternam entre exibicionistas, chatos, vaidosos, religiosos, falsos formadores de opinião, torcedores fanáticos e até, com muita sorte, gente que pensa, filosofa e compartilha só coisa que presta.
O que a maioria quer, realmente, é dar aquela espiada na vida do outro, seja pelo Facebook, pelo buraco da fechadura ou pela fresta da janela, quando imagina que ninguém os esteja observando. O que leva as pessoas a esquecerem de si para direcionar o olhar ao outro, não de forma compassiva, fraterna, mas maledicente, na maioria das vezes?
Me sinto uma alienada total à vida pessoal, aos hábitos cotidianos ou seja lá que rotina adotem os meus vizinhos ou conhecidos. Mal sei quem mora no meu prédio e nem reunião de condomínio eu frequento. Não sou uma ilha. Ao contrário, tenho muitos amigos fiéis e, para esses, abro as portas da minha casa, o que não quer dizer que todos possam olhar pelo buraco da minha fechadura, privilégio reservado a raros e antigos parceiros de jornada.
Há quem saiba o nome de todos, a profissão, a placa do carro e, se bobear, até o CPF do morador ao lado. Me reservo o direito de espiar para dentro de mim mesma, olhando para o buraco da fechadura da minha vida, essa sim, cheia de surpresas das quais nem eu mesmo tenho conhecimento e que ainda nem foram reveladas a mim mesma, quanto mais aos estranhos de plantão, que não dormem pensando que a grama do vizinho sempre é mais verde que a deles.
Roseli Santos
jornalista


