Geral

O trágico inverno de 82

Duas tragédias que marcaram o mês de junho de 1982 nunca saíram da minha memória. Uma delas eu assisti pela

Duas tragédias que marcaram o mês de junho de 1982 nunca saíram da minha memória. Uma delas eu assisti pela televisão: o inesperado fracasso da Seleção Brasileira de Futebol na Copa da Espanha. A outra, que ocorreu no mesmo período desta competição, eu testemunhei ao vivo nas cidades de Igrejinha e Três Coroas, que foram quase arrasadas por uma das maiores enchentes da história do Paranhana.
Se hoje não sou um torcedor fanático de futebol, a ponto de sofrer pouco pelos últimos vexames do Grêmio, devo isto à lição que aprendi vendo a derrota canarinha no estádio Sarriá. Na Copa anterior, na Argentina, eu ainda era uma criança e nem pude ver direito os jogos, abatido pelo sarampo que me deixou de cama por vários dias. Em 82 foi a primeira vez que pude acompanhar uma Copa do Mundo com atenção, já entendendo um pouco de futebol e inspirado pelo então sucesso do Grêmio campeão brasileiro pela primeira vez. Sofri como quase todos os brasileiros a derrocada daquele que ainda hoje é considerado um dos melhores times de todos os tempos, mas pelo menos aprendi que não se deve levar em demasia o amor pelo esporte.
O que me leva a escrever este relato, entretanto, foi outra tragédia que testemunhei na mesma época, esta vista com meus próprios olhos. Lembro que naquele mês de junho houve um fim de semana de chuva intensa e prolongada por cerca de três dias. A precipitação iniciou na sexta-feira e não parou mais até as primeiras horas da manhã da segunda-feira, mas só fui me dar conta da gravidade quando cheguei na escola Dorothea Schäfke, onde estudava, e a professora nos informou que os colegas que residiam em Três Coroas e Igrejinha não puderam vir a Taquara. O motivo é que eles estavam ilhados pela enchente que, naquela manhã, havia tomado conta das áreas urbanas das duas cidades.
Ao meio dia, quando cheguei em casa, me apressei a contar para meu pai, Raul, o que havia acontecido, sabendo que ele gostava muito de ver pessoalmente as enchentes que ocorriam nos rios da região. Meu pai e meu avô, Oto Müller, haviam construído artesanalmente um barco, ainda na década de 40 do século passado, e costumavam aproveitar as enchentes para ir a lugares onde o nível normal do rio dos Sinos não permitia a navegação. Diante da informação de que havia uma grande cheia ocorrendo, meu pai nem pestanejou. Tão logo almoçamos, ele foi buscar seu carro e me levou junto para ver in loco o que estava acontecendo.
Lembro ainda hoje de sua expressão de susto e surpresa quando, ainda antes de chegarmos a Igrejinha, constatamos que as águas já estavam quase ultrapassando o leito da ERS-115 no trecho do conhecido retão, onde hoje existe um posto de combustíveis. Mais adiante, na altura do bairro Saibreira, paramos na parte alta da 115 para ver a cena que dias mais tarde estaria na capa do Panorama: o centro de Igrejinha completamente inundado.  Seguimos adiante pela rodovia até Três Coroas, onde presenciamos um cenário ainda mais devastador: a força das águas havia derrubado a antiga ponte coberta da rua Tristão Monteiro, então único acesso da ERS-115 até o centro da cidade.
Não ficamos muito tempo vendo a enchente porque meu pai precisava retornar a Taquara para abrir a Relojoaria e Ótica Müller, afinal de contas a vida seguia normal em nossa cidade. Mas, as cenas que presenciei naquela cerca de meia hora em que estivemos em Igrejinha e Três Coroas foram suficientes para que pudesse avaliar, nos anos em que atuei como repórter do Panorama, a gravidade de outras cheias. Lembro ainda que eu e meu pai retornamos a Três Coroas no final de semana seguinte para ver com mais calma os estragos deixados pelo Rio Paranhana. Havia se tornado uma atração a ponte de ferro que o Exército tinha instalado quase no mesmo ponto da antiga travessia, permitindo que os moradores pudessem ter acesso ao centro da cidade sem ter que dar grandes voltas. Cenas parecidas com aquelas de 82 só fui testemunhar novamente há pouco mais de dois anos, quando Três Coroas e Igrejinha sofreram outra grande cheia. Vale lembrar, entretanto, que três décadas atrás ambas as cidades eram bem menores e havia menos obstáculos para o rio. O que me faz pensar que a memória desta tragédia não pode ser esquecida, para evitar que uma futura enchente cause tantos prejuízos.

João Alberto Müller
Jornalista

Leave a Reply