Os números do crack impressionam, e a visão desta droga implacavelmente destrutiva na sociedade é assustadora. Não há como ficar indiferente aos noticiários que retratam casos de mães acorrentando filhos ao pé da cama, como forma desesperada de mantê-los vivos, longe do vício e da ameaça de traficantes. Recente reportagem de programa televisivo, chocou ao mostrar o drama de mãe que abandonou família, trabalho, casa e a própria vida, para morar na rua com o filho viciado. Restrito inicialmente aos grandes centros urbanos, o crack já é a droga ilícita mais consumida no estado de São Paulo, em municípios de todos os portes. O mesmo cenário se espalha célere para as outras unidades da Federação, como uma verdadeira epidemia.
Situações epidêmicas requerem medidas fortes e urgentes. O que fazer, no entanto, quando há falta de leitos hospitalares do SUS (Sistema Único de Saúde) destinados aos dependentes químicos? O próprio Ministério da Saúde reconhece a enorme defasagem, e promete repassar recursos para que estados e municípios criem 2.460 leitos até 2014. Não será tarde demais, quando se sabe que a possibilidade de tratamento passa geralmente pela internação? Este momento é indispensável para a quebra da sequência perversa de eventos neuroquímicos que o usuário enfrenta ao não utilizar a droga. Para o tratamento inicial do dependente de crack os CAPSad (Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas) e sua abordagem ambulatorial não bastam. É necessário internação hospitalar, acompanhamento de médico e de uma equipe multidisciplinar de saúde. Mas onde internar?
Nos últimos 19 anos foram fechados mais de 1.600 leitos psiquiátricos no Rio Grande do Sul; só em Porto Alegre houve uma redução de 72% na oferta. Em 2007 registrou-se um quadro desalentador que simboliza bem o estado das coisas. Em grande crise financeira, o Hospital Espírita reiteradas vezes solicitou ajuda aos governos municipal e estadual. Segundo a direção do estabelecimento de saúde, na época, o custo real da diária para tratamento era de R$ 40, mas o hospital recebia apenas R$ 25,30. Os gestores foram implacáveis no auxílio: fizeram ouvidos moucos. O resultado: menos 80 leitos psiquiátricos pelo SUS.
Do plano do Governo Federal intitulado “Crack, é possível vencer”, até agora o que se viu de efetivo foram as medidas de repressão policial, algumas de truculência inaceitável, em centros de consumo de crack, as chamadas cracolândias. Acompanhadas pelos principais telejornais do país, as ações parecem mais uma varrida do problema para baixo do tapete, seguindo a máxima “o que os olhos não veem…” Enquanto isso, pais, mães, esposas, filhos, famílias inteiras continuam a esperar pelos leitos, e a se desmantelar ante a inexistência de uma efetiva política de tratamento aos usuários da droga, que antes de viciados, são doentes necessitando de ajuda.
Paulo de Argollo Mendes
Médico e presidente do Sindicato
Médico do Rio Grande do Sul


