Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Ideologia é o que te faz explicar e justificar as deficiências individuais, baseado em utopias grupais.
AVENIDA PERNAMBUCO
Sempre me impressionaram muito aquelas cenas de filmes americanos mostrando bairros de cidades com casas e edifícios abandonados. Vocês devem saber do que estou falando. Geralmente, se passam em Nova Iorque. Não que isso só acontecesse lá, mas, como os filmes tendem a ter algo de cosmopolita, não vejo um lugar melhor.
Ou aqueles grandes armazéns onde os bandidos faziam seus negócios escusos de compra e venda de carregamentos de drogas ou armas e maletas cheias de dinheiro, ao contrário de nos dias atuais, quando as trampolinagens são mais “politicamente” incorretas (ênfase ao “político”, se me entendem bem!) e perpetradas em gabinetes bem públicos. É uma cena típica, tantas vezes explorada pela Sétima Arte!
Eu pensava: quanto desperdício! Como pode alguém deixar, assim, de lado, um prédio, uma fábrica, um bairro!
Na revista Galileu, de julho, o abandono foi abordado de maneira extrapolada, mostrando cidades fantasmas. Claro, não são metrópoles, mas algumas, como é o caso de Chernobyl, aliás, Prypiat – vizinha ao reator de nome tão famoso, que explodiu na Ucrânia – chegaram a ter 50.000 habitantes. Nesse caso, o local foi evacuado totalmente em consequência da radiação, devida ao acidente nuclear, em 1986, tornando-se inabitável pelos próximos nove séculos. Há, também, a história de Centralia, Pensilvânia, nos Estados Unidos, cuja existência, até 1962, era sustentada pela extração de carvão. Naquele ano, um incêndio atingiu galerias já desativadas das minas, as quais passam por baixo da cidade. O fogo não se extinguiu até hoje, elevando a temperatura do solo, em alguns pontos, a 70º C, além de produzir gases tóxicos que brotam do chão, forçando ao abandono na década de 1980. Outra história é a de Pompeia, na Itália, que teve a destruição narrada pelo meu xará, Plínio, o Velho (morto no acontecimento) no ano 79. Desapareceu por causa da lava e das cinzas do vulcão Vesúvio. Nem sempre, porém, o esvaziamento se deve a motivos de ordem tão compulsória quanto esses desastres. O mais corriqueiro é a economia. De repente, deixa de ser lucrativo manter qualquer atividade naquele local e, pronto, todos vão embora, sem, mesmo, apagar a luz.
No último sábado, visitei um desses lugares. Foi o Bairro Navegantes, em Porto Alegre. Mais precisamente, a Avenida Pernambuco, onde morei dos cinco aos 33 anos. Deu um aperto ver, nas casas ainda existentes, não mais casas, mas taperas. Mesmo das construções que substituíram as antigas moradias, muitas já se tornaram lixo, ficando apenas os vãos formados pelas paredes depredadas, como cavernas assombradas. A linha do Trensurb deu um jeito de cortar a existência de um lugar outrora pulsante, isolando-o da urbe.
Pode ser que a Arena, do Grêmio, ajude a revitalizá-la, pois um dos caminhos de acesso ao estádio será a Av. A. J. Renner, paralela à Pernambuco. E aí, sim, sofrerei outro golpe nas minhas lembranças, pois eu, colorado que sou, me tornaria refém sentimental “deles”.


