Leio mais uma notícia, no mínimo, curiosa. Uma modelo de fama duvidosa, ao menos para mim que nunca ouvi falar na dita cuja, decidiu fazer uma plástica para melhorar a aparência da vagina, considerada por ela feia por natureza, para ver se melhorava esteticamente também as partes mais íntimas.
Era o que faltava. Agora, além de botox no rosto, silicone nos seios e lipoaspirações, vale também investir na remodelação de tudo aquilo que julgamos feio por natureza, ainda que ninguém, ou poucos, tenham acesso à áreas restritas, como esta, dependendo do caso, claro. Fiquei imaginando de que forma seria possível dar uma aparência mais ajeitadinha para a vagina. Talvez uma puxadinha aqui, a retirada de alguns excessos de pele ali, uma apertadinha acolá e, finalmente, como num passe de mágica, tudo ficaria novinho em folha.
Cheguei até a imaginar essa modelo, dias após a cirurgia, dando entrevistas bizarras para o Fantástico sobre os efeitos emocionais que tal feito causou na sua vida afetiva, sexual, pessoal e profissional. Não me refiro aos casos onde algum procedimento médico seja necessário e indicado por questões de saúde ou sei lá mais o quê. Falo dessa angústia e da aversão que as pessoas têm ao que é considerado ou visto como feio, na tentativa de eliminar, extirpar, sugar, extrair o que não querem por perto.
As alterações estéticas se tornam, nesse caso, uma fuga da realidade, como se, modificando a aparência externa, pudéssemos nos transformar por dentro em alguém melhor, também. Lembrei do último filme de Pedro Almodóvar “A Pele que Habito”, e cheguei a me arrepiar, novamente, embora ali a história tenha outra origem.
A tolerância à frustração me parece ser um sentimento cada vez mais raro. Ninguém quer passar por nada desagradável, nem desconfortável, nem dolorido, nem nada. Para isso, existem antidepressivos, calmantes, álcool e algumas outras drogas que nos anestesiam da vida a qualquer momento, se assim desejarmos. Para isso, existem as cirurgias de todo o tipo que eliminam aquilo que não queremos. Para isso, não existe cura. A eterna frustração levará ao fim inexorável, um dia qualquer, com ou sem o nosso consentimento.
Seguir e aceitar o que nos é dado pela vida é uma opção que pode ser adotada sem grandes frustrações. Ao contrário, se a cada vez que algo nos desagradar conseguirmos ter um olhar mais amoroso para conosco mesmos, saberemos nos enxergar, e aos outros, também, de uma maneira mais bonita, como somos realmente por dentro, na essência, sem plásticas, sem medo do patinho feio que pensamos ser, permitindo aflorar o cisne que nem imaginávamos ter crescido dentro de nós.
A pele que habitamos é esta que aí está, pronta para o que der e vier. E o que somos pode ser melhor ou pior, dependendo das cirurgias internas a que nos submetemos, especialmente aquelas que mexem e nos transformam em seres melhores por dentro, a cada dia, dependendo das experiências vivenciadas e, principalmente, daquilo com que alimentamos a nossa alma. O resto pode ser mexido, repuxado e esticado à vontade, até morrermos, de frustração eterna, lamento informar.
Roseli Santos
Jornalista


