Penso, logo insisto
Esta postagem foi publicada em 28 de setembro de 2012 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Neologismos

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Quanto mais velho fico, mais me pareço com o vinho. Só não sei se estou melhor ou virando vinagre.

NEOLOGISMOS

Meus leitores já devem ter notado a prática: costumo aportuguesar termos estrangeiros. Transcrevo palavras isoladas, segundo sua pronúncia no Brasil, apesar de, nem sempre, esta corresponder ao original. É tentativa de transliteração, mas a escrita, em qualquer língua, tem dificuldade de retratar a fala. Basta lembrar um carioca dizendo “sim” em inglês: “iéix”. Sem considerar que, muitas vezes, o locutor/escritor tem interesses na manutenção da forma estrangeira, embora com as diferenças de pronúncias – caso de shampoo. Quando se trata de uma locução, sigo outra regra: mantenho os termos no idioma matriz.
Assim, tenho escrito “xou” (show), “estátus” (status), “róbi” (hobby), “câmpus” (campus), “márquetim” (marketing), “xópim” (shopping). Esta última exigiu alguma adaptação. Como, salvo raríssimas exceções, não há, em português, paroxítonas terminadas em “im”, não há uma regra específica de acentuação gráfica para elas. Isto obrigou-me a emular a existente para as paroxítonas terminadas em “in”, “an”, “on”, “ão”, “ã”, “en” (exemplos: “dólmin”, “íman”, “íon”, “órfão”, “órfã”, “hífen”).
Não sei se alguém notara! O editor do PANORAMA sim. Num emeio (outra, de e-mail) trocado comigo, ele escreveu feedback, mas completou, marotamente, “ou seria fidibéqui?”. Não, não seria. Embora tenha a lógica da oralidade e esteja seguindo a regra de acentuação para as paroxítonas terminadas em “i”, não tem a lógica da analogia. Explico! Há alguns anos, não se usava “zagueiro” no futebol. Usava-se “beque”, de back (“atrás”, entre outras acepções), porém pronunciava-se “*béqui”. É o mesmo fenômeno de “*lêiti” (para “leite”) e “*futibol” (para “futebol”). O correto seria, pois, “fidebeque”.
Aportuguesamentos não são gratuitos, seguem uma rotina ortográfica. E não me venham com “handebol” para handball. Em nosso idioma, “h” não tem som, sendo, pois, um aportuguesamento esdrúxulo (do italiano sdrucciolo).
Por que lhes conto isto? Porque, por uma descoberta acidental, passei a me sentir bem acompanhado. E a descoberta nem foi minha. Foi de uma aluna de 7ª Série, a Milena. Ela, envolvida pelo forte trabalho ortográfico e semântico que desenvolvo, perguntou-me o significado de “quirieleisão”, encontrada num livro de 1930 de Carlos Drummond de Andrade e reeditado em antologia pelo Ministério de Educação em 2007. Confesso, nunca a tinha lido, mas lembrei-me do velho Kyrie, eléison (“Deus, tende piedade)”, das missas ajudadas lá na Capela de São Miguel, em Porto Alegre. Agradeço ao poeta! Sei que não estou solitário no aportuguesamento, entretanto é bom ter alguém desse calibre ao lado. Pela pronúncia dos padres, na época em que a missa era em latim, a palavra deveria ser como está no Aulete: “quirielêisom”, mas tudo bem, a versão do poeta também existe. Drummond era um grande escritor e dominava o idioma.
Finalmente, para coroar minha satisfação, a Zero Hora de 21 deste mês, página 3, publicou “onlaine” (para on line), já usada por mim.
Pois é, pois é, pois é, como diria a Chiquinha (aquela do Chaves)!

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]

Leave a Reply