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Esta postagem foi publicada em 11 de outubro de 2012 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Onde fica o inferno?

ONDE FICA O INFERNO?

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Quem diz “cada caso é um caso”, está pronto para criar caso.

Nos últimos meses, tenho sido confrontado com um dilema altamente filosófico. Afigurou-se-me a seguinte pergunta: “pode um diabo reclamar do inferno”? Claro, poder pode, mas, é aceitável? Supondo que você tivesse a possibilidade de presenciar uma reclamação dessas, acreditaria nela ou, simplesmente, levaria em conta como, apenas, mais uma diabrura? Pior, ainda, imagine um chifrudo qualquer, daqueles milhares existentes por lá, no inferno, dizendo que as coisas não estavam boas no lugar. Mesmo apesar da força de sua maldade, grande, quase tão grande quanto a do próprio demônio (embora muito menor que a bondade – por definição – de Deus), pense no diabão nada fazendo para melhorar o lar doce lar. Se o inferno está um inferno, um antro de sofrimento, bastaria ele próprio e todo o resto da diabada deixarem de ser maus. A maldade se combate com a bondade. O inferno se tornaria um paraíso em pouco tempo, mercê dessa outra força, a do bem. Só que, daí, o lugar perderia sua principal característica (eu ia dizer “atrativo”, pois nós sabemos, muita gente sente uma grande atração pelo pecado, mas talvez não pegasse bem, inclusive entre os próprios pecadores; ninguém admite).
Mas não adianta! Diabinhos diabólicos não reclamam com a intenção de melhorar seu lugar de trabalho, se é que podemos chamar de trabalho o não cumprimento dos compromissos estabelecidos pelo chefão, entre outras coisas. Pelo contrário, o diabame reclama porque a coisa fica pior ainda se o pessoal, em vez de tentar achar soluções, elevar a voz dizendo que não dá mais para aguentar, “onde já se viu uma situação destas?”. Faz parte de seu código de conduta diabólico a felonia, a mentira e tantas outras coisas execráveis. A condição sine qua non para um lugar ser tratado como infernal, excetuando o problema da temperatura – óbvio – é ninguém gostar de estar ali. Eis uma boa técnica; ela alcança muito sucesso entre a clientela. E como funciona!
Imagine um coisa- ruim, falando para seu superior: “Chefia, isto aqui tá uma verdadeira m(*)rda!”. O grandão replica, vaidosamente satisfeito: “Eu me esforço”. O diabrete faz o clássico gesto de guampinha com os dedos anular e mindinho e completa: “Falou!”. E os dois desatam na mais tonitruante gargalhada, rindo até o afrouxamento total dos esfincteres, urinando-se completamente. No inferno, não é feio, contribui para o clima; faz parte da mise-en-scène da instituição.
É isso aí! Cada um de nós conhece um lugarzinho semelhante ao descrito acima. Resta ter consciência da nossa posição. Veremos que, dependendo de nossas ações, a pergunta do título não é tão difícil de responder. Você não está gostando da sua turma?

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