Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Chaves falsas são as que melhor funcionam, pois abrem qualquer coisa!
ESPETÁCULO
Quem escreve regularmente para um jornal ou revista corre o sério risco de repisar alguns temas. Este, de hoje, por exemplo, já foi abordado nas crônicas de número 109 e 130 (esta é a 192). Não, não é a imaginação desaparecendo com a idade. É que os acontecimentos diários empurram a gente para determinados assuntos, numa prova irrefutável de circularidade de nossos atos. A nós, comentaristas do diário, cabe comentar.
O introito acima é, apenas, para meter a mão (notem a minha finesse!) no gol de Barcos, do Palmeiras, contra o Internacional no dia 27 de outubro. Sou, levemente, colorado, o que pode despertar em alguns a desconfiança de eu legislar em causa própria. Tentarei não dar pano para mangas, mas, como a coisa aconteceu com os vermelhos, sempre haverá esta desconfiança. Vocês logo verão, porém, que essas desconfianças são injustificadas.
Li um texto na SporTV, assinado por André Rizek, a respeito desse lance, tomando por base o famoso gol de Maradona contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986, abrindo a vitória para a Argentina. Abusadamente, ele passou a ser conhecido como “gol mão de Deus”, título inventado pelo sapeca Maradona, concedendo a si próprio o título máximo da hierarquia religiosa. Pois, para minha surpresa, após tecer considerações psico-histórico-sociológicas do tipo “os coitadinhos dos argentinos mereciam aquela vitória para lavar o orgulho tão abalado depois da Guerra das Malvinas”, Rizek faz uma interessante ladainha para provar que, ora, bolas!, o futebol tem dessas coisas. O mais surpreendente foi encontrar outros colunistas com a mesma filosofia. Afinal de contas, é tudo diversão, moçada! Todos os times fazem a mesma coisa nos mais variados níveis de enganação. Parem de se preocupar.
Fiquei pensando e concluí: eles têm razão. Os jogadores estão representando e se divertindo. Futebol não é uma coisa séria. Pouco importa se os torcedores supõem alguma lisura (desde que favorável ao seu time); nada significam os grandes investimentos feitos nos divertidos atletas. É, apenas, teatro! A diferença em relação a uma peça de Shakespeare é o fato de não existir um roteiro fixo. Os atletas são melhores atores, pois têm grande capacidade de improviso.
Apesar disto, é triste ver o ataque às nossas mais fundamentais convicções na existência de uma coisa chamada causa e consequência. É odioso ver as regras sendo burladas descaradamente. Se aconteceu algo contra a lei, mas ninguém notou, basta fingir que nada aconteceu, como pretende o Palmeiras. Importante, mesmo, é a emoção, é a discussão, é a porrada. Reclamar por quê? O vale-tudo está fazendo muito sucesso e a verdade estraga o prazer.
Barcos também é argentino e seu gol deve ter sido o “gol mão do filho de Deus”. É só perguntar ao Maradona.


