A doença impronunciável corroía-lhe os intestinos, caçoando do cérebro viril que já desejava um estado de inconsciência para não purgar a desesperança.
Foi com pensamentos terminais que Maurício viu chegar a plantonista do segundo turno da UTI, a mesma cujo profissionalismo lhe teria merecido um elogio, na tarde anterior, se ele achasse que alguma cortesia ainda valesse a pena.
Mas hoje Maurício não teve tempo de reparar nas aptidões de Iolanda para o trabalho, pois sua percepção foi imediatamente capturada pela moldura que os fartos cabelos loiros deram ao rosto da enfermeira. Parecia que uma pintura inédita se oferecia diante dele, que em nada lembrava os traços abstratos do rosto de ontem. Já se esforçava em lembrar se ela usara maquiagem na véspera, pois só agora notava os traços realçados com precisão cirúrgica. O avental de Iolanda continuava puro como antes, mas o pensamento de Maurício ganhava um rubor que repercutia em seu baixo ventre: seria o tumor avançando? Sem dúvida, era algo devastador que se prenunciava, sentia na rigidez cavernosa do seu íntimo.
Maurício temeu que já tivesse feito a passagem, pois a atmosfera na UTI assumia algo de inverossímil. Aproximava-se a meia hora de visitas permitidas à tarde, mas Iolanda não iniciara a preparação rotineira do paciente. Foi, pois, totalmente despreparado, que Maurício recebeu o beijo mais invasivo de sua vida, capaz de inocular milhares de microorganismos, mesmo em meio a total assepsia.
A libertação oferecida pelo inesperado gozo arrancara, por instantes, a percepção física do tumor. Mas agora era o cérebro de Maurício que corroía, trazido à tona pela voz pastosa da insone esposa que acabara de chegar. Ela trouxera na boca, já vincada de tanto rezar, um beijo piedoso que alcançou de leve a têmpora de Maurício, enquanto este lutava para conciliar a boca seca de susto e uma constrangedora umidade residual ao sul da sua sentença de morte.
Esta postagem foi publicada em 18 de janeiro de 2013 e está arquivada em Paralelas.



