Finalmente, depois de um mês de atraso do previsto, entrava no Brasil o filme baseado no livro “On the Road”, de Jack Kerouac. De forma nenhuma eu queria deixar para vê-lo na TV, e dei uma escapadinha para pegá-lo ainda na telona.
Minha curiosidade era muita, o filme fora realizado por um dos meus diretores favoritos, Walter Salles, e compondo o trio central há Kristen Stewart, uma doçura de hippie em “Na natureza selvagem”, Sam Riley – ótimo em “Control”, e Garret Hedlun, que só conhecia sob a armadura holográfica na ficção-científica “Tron 2”, mas me surpreendeu. Agora o “On the Road” de Salles sai em DVD. O que achei do livro filmado? Quando terminou, estava em lágrimas, no fim explico.
“On the Road – o livro” era como “O Senhor dos Anéis”, obra considerada infilmável. Ninguém se arriscara até então a tentar por na tela, pelo menos quase na íntegra (já existe um filme inspirado no livro) o excesso de idas e vindas de um personagem que mescla como ninguém em sua voz narrativa o subjetivo e o objetivo em longos parágrafos propositalmente quase sem pontuação nenhuma. Nesse quesito, Walter fez um trabalho muito bom, mas estranhamente, ao mesmo tempo em que busca a perfeição, peca ao alterar e esquecer certos momentos.
O fascínio do livro está nas camadas que contém, ou seja, uma primeira leitura dá numa coisa, uma segunda, dá noutra. Foi jovem ainda que conheci “On the Road” e o devorei em uma só cartada viajando direto encantado com as descrições/emoções que o narrador me fazia vivenciar. Bem mais tarde, conhecendo melhor o universo beat e a vida do autor – matéria-prima inseparável de suas ficções – saltoume aos olhos o redemoinho vivo da relação Jack e Neal, que na primeira versão impressa e no filme são Sal e Dean.
Unidos por uma infelicidade que neles se incrustara desde a infância e que se calaria só com suas mortes, tentavam driblá-la, e sabiam que pela vida comum não conseguiriam fazer isso, pois essa era a fonte de tal arraigada tristeza, então buscavam fora dela, ou seja, na estrada, além dela, das convenções. Se não havia Deus de onde vieram, então deveria estar no que restava, lá veriam a face dele, que os perdoaria, os purificaria, lhes daria o paraíso perdido. Essa motivação, assim como um humor mesmo que tragicômico, ficaram de fora na versão de Salles.
O diretor não leu errado, mas fixou mais o drama dos beats e esqueceu o frescor da aventura da juventude. Seu filme, ao contrário da minha primeira leitura do livro, não deu vontade de pegar a mochila e por o pé na estrada, mesmo assim mexeu fundo com meu coração beat.
Outro detalhe que escapou é que, no fim do livro, Dean tinha um dedo machucado à beira da amputação, e Kerouac vê esse momento como um forte simbolismo da crise em que Neal está mergulhado antes de se separarem definitivamente. Outra parte legal pela qual passaram raspando foi a de Sal/Jack com a mexicana Terry. Quando Ka encontra com ela pela primeira vez, havia dormido num banco de rodoviária lugar que, segundo ele, ”gera muitas histórias interessantes”. A parte solitária de Sal/Jack em suas viagens dentro de On the Road foi pouco explorada.
Unidos por uma infelicidade que neles se incrustara desde a infância, e que sabiam que a vida comum não poderia calar, por isso buscavam, além dela, fora das convenções, queriam um momento único, particular, só deles, um momento poético de sublimação em que fossem libertos e encontrassem a paz e a beleza, o deslumbramento que não precisasse mais de nada. E deste também esquece um lado espirituoso, tragicômico, que nos tirava alguns sorrisos, alguma poesia que doce ou amarga mesmo assim nos impelia para a estrada, a alma do narrador. O que o filme mostra, mas esqueceu de dizer que, apesar da barra pesada que se torna a vida dos dois, no meio dessa aparente indiferença, dessa loucura toda, no início houve uma vez uma inocência, poesia, a necessidade de encontrar uma esperança de o que realmente era certo, o êxtase da purificação, a sublimação, o verdadeiro rosto de Deus, mas nesse caminho são poucos os que conseguem manter os olhos abertos, não se cegarem, foram eles, uma vez, crianças brincando nos jardins proibidos do Senhor.
Walter não leu errado, mas transcreveu o livro às telas como olhar adulto, assim o seu filme, se não me deu vontade de pegar a mochila e por o pé na estrada, como fez a minha primeira leitura do livro, mesmo assim mexeu fundo com meu coração beat.
Esta postagem foi publicada em 8 de fevereiro de 2013 e está arquivada em Haiml & etc..


