Paralelas
Esta postagem foi publicada em 1 de março de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Sinais Sacros

Desde que assumiu, há três anos, o trabalho doméstico na casa paroquial, Das Dores arrasta uma curiosidade mais pesada que suas indolentes chinelas de mulher solitária: Por que padre Homero não lhe permite lavar as roupas de cama?
No começo ele alegara poupar-lhe o esforço da lida com as pesadas peças. Afinal, o santo homem dormia suas celibatárias noites numa cama excepcionalmente grande. O pároco conduzia, pessoalmente, as peças para lavar no autosserviço da lavanderia, todas as quartas-feiras.
Das Dores aceitou o piedoso gesto de bom grado até a chegada da máquina de lavar. As beatas da paróquia haviam tomado a iniciativa.
– Agora não carece mais levar as roupas, padre. Ponho na máquina e pronto! – disse Das Dores, que estranhou a imediata reação.
– Gosto de manter certas rotinas. Além do mais, vamos doar esta máquina à creche mais necessitada. Para minhas poucas roupas, não há necessidade destes luxos – retrucou o padre, irredutível.
Das Dores fingiu que se convencera, não deixando de pensar nos caros vinhos que padre Homero consumia, nas cigarrilhas (sim, ele tragava usando uma piteira), nas longas viagens a Livramento, só para jogar no cassino.
Fôra a gota d’água na curiosidade transbordante da doméstica. Na terça-feira seguinte, quando padre Homero saiu para a tradicional visita aos enfermos, Das Dores violou-lhe os aposentos. Ele sempre deixava a cama impecavelmente estendida, hábito anterior ao seminário, que aprendera ainda com a mãe. Hesitante, Das Dores deteve-se diante da enorme cama, imaginando por que um homem solitário precisaria de tudo aquilo.
No instante seguinte, num gesto sôfrego, arrancou, de uma vez só, as cobertas que escondiam o irrevelável. Das Dores conhecia aquelas manchas, que o amor deixava escapar, quando o prazer explodia em êxtase, nas suas noites, há muito amanhecidas. Estranhou, no entanto, a falta de pudor daquelas marcas, em nada semelhantes aos comedidos sinais de suas melhores lembranças.
Desejou muito perguntar a padre Homero sobre aquilo, mas sabia que jamais teria coragem. Só se ele… No instante seguinte, removeu os lençóis e retirou da cômoda um par limpo, que deixou colocado, o mais rápido que pôde. E se ele voltasse, esquecido da água benta ou das hóstias? Lavou aquelas manchas com devoção e uma inquietude que não conseguia acomodar no peito.
Já ia guardando na cômoda os lençóis novamente puros, quando voltou-se e, depois de um rápido pensamento, deixou-os ostensivos sobre a cama, numa pergunta que não dispensava resposta.
Para padre Homero, que não havia subido ao quarto ainda, o jantar transcorreu com a normalidade de sempre. Das Dores é que não conseguia controlar as mãos, nem o furor dos pensamentos. Uma travessa quebrada, padre Homero nem percebeu, absorto na leitura do jornal do dia.
– Me serve mais um pouco de vinho, Das Dores – pediu o páraco, sem tirar os olhos da leitura, até que um movimento inabitual, nervoso, captou-lhe a percepção:
As manchas! – exclamou o padre, dois tons acima do normal.
Das Dores deixou de respirar por instantes, até ouvir a voz do padre: Melhor colocar logo esta toalha de molho. Vinho não é fácil de remover.
Dito isto, o páraco apanhou a taça de vinho e dirigiu-se à sala para concluir a leitura, enquanto Das Dores terminava de retirar o jantar da mesa.
Vendo que padre Homero já fechara o jornal e sorvia os últimos goles de vinho, a mulher decidiu deixar a louça na pia. Precisava sair logo, antes que ele subisse para o quarto. Ao se despedir, procurou disfarçar o nervosismo, mas o padre notou que Das Dores saia vestindo o avental de trabalho.
Não achas que estás fazendo algo um tanto inadequado, Das Dores? Ela ouviu a frase, sentindo que o chão lhe faltava, no susto de ter sido descoberta sua indiscrição. Se temia ser apanhada, por que deixara, propositalmente, tanta evidência?
A noite foi longa e inquieta para ambos. O que ele lhe diria na manhã seguinte? O que dizer a ela no dia que se anunciava?
Das Dores chegou para o trabalho na hora de costume. Padre Homero não se levantou às sete, como de hábito. O coração dela se fechava, apertado, enquanto a porta do quarto não se abria. Colocou a mesa do café, lavou a louça dormida, andou sem direção pela casa, não conseguia pensar o almoço. A mancha de vinho persistia na toalha de mesa. O molho da noite não dera conta de removê-la, assim como as horas foram insuficientes para que padre Homero purgasse a revelação de suas manchas.
Quando, já tardiamente, Das Dores colocou o almoço à mesa, padre Homero ainda não havia dado sinais de sua presença na casa paroquial. Teria saído, cedo da manhã, antes mesmo que Das Dores chegasse?
Ela subiu a escadaria, quase levitando, chegou à porta sem fazer o menor ruído, exceto pelo coração a galope. No momento em que a porta se abriu, a ordem dos acontecimentos ganhou uma dimensão irreal. Parecia que se abrira antes dela bater. Parecia que entrara, antes da porta se abrir. Parecia que mal entrara, já era noite.
O almoço esquecido fechou a quarta-feira sobre a mesa. A primeira quarta em que Padre Homero não foi à lavanderia. Imaculada quarta, da primeira comunhão das dores de Homero.

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