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Esta postagem foi publicada em 24 de abril de 2009 e está arquivada em Colunas, Haiml & etc..

As três irmãs

haimlAbril não é só mês pascoal, do Tiradentes, do Índio, do 22.04. É também o mês de nascimento de Anne (21.04), uma das irmãs inglesas que, junto com Emilly (30.07) e Charlotte (17.01.) formaram o famoso trio de escritoras da família Brontë. Num total de seis irmãos, foram elas as últimas sobreviventes do clã Brontë.
Charlotte (1816-1855), Emily (1818-1848) e Anne (1820-1849) eram filhas de um pastor anglicano. Cedo ficaram sem a mãe. Foram então cuidadas pela irmã mais velha e, após, por uma tia, que parece não ter tido muita estima pelas sobrinhas, nem pela tarefa de criá-las. Maiores, foram postas em rígidos internatos, fato esse que, se lhes favoreceu a educação, o amor pela escrita e à leitura, lhes fez provar um lado da vida que, junto a outras experiências ruins, seria mostrado e denunciado em suas obras. Essas outras experiências foram os empregos de governanta e professora, aos quais as irmãs tentaram se dedicar, o que só lhes causou mágoas e desgostos.
Com o tempo, voltaram a morar com o pai, que estava doente, no presbitério de Hawford, Yorkshire, lugar de natureza sombria, onde só havia um cemitério, terrenos baldios e uma pensão para pobres. Lá viveram seus dias finais, acompanhadas quase que apenas pelo irmão Branwell, viciado em ópio e álcool, e que compartilhava com elas o amor pela poesia, além de desenhar e pintar muito bem, tendo-as retratado várias vezes. Sob pseudônimos masculinos, elas publicaram um livro de poemas. Charlotte lançou “Jane Eyre”, “Shirley” – descrição da vida em Yorkshire, e “Villette”, sobre suas experiências em Bruxelas.  Seu “The professor” (1857) seria publicado postumamente. Emily teve uma única, mas derradeira obra: “O morro dos ventos uivantes”. Anne deixou “O campeão de Wildfell Hall” e “Agnes Grey – A preceptora”.
A literatura delas, de uma força descomunal, corajosamente revela a hipocrisia e as injustiças que ocorriam, sem medo de colocá-las como vencedoras sobre tudo de bom que se tenta fazer, que tenta surgir.
Tiveram dificuldades de publicar suas obras pelo fato de serem mulheres e mulheres que desconcertavam a sociedade pelo modo como a retratavam, sem papas na língua, sem medo de expor, mesmo usando do novelesco ao sobrenatural, as hipocrisias e o cruel realismo que viam e experimentavam, e faziam isso com um rico conhecimento da alma humana e do meio social que frequentaram e que as cercava.
Tudo o que as três irmãs reprimiram, contra a vontade ou não, acabará por se libertar e se tornar em personagens como a louca do sótão, em “Jane Eyre”, ou se delinear de forma definitiva em “O morro dos ventos uivantes”, história na qual se debatem/se confrontam seres presos aos tormentos eternos de desejos mal-sucedidos, mal-consumados, num texto que se instala no meio literário como um dos mais intrigantes romances já escritos.
Luiz F. Haiml
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