Quando foi aberta a porta da danceteria, a massa acotovelava-se à entrada, agora com pressa, depois de quase duas horas na fila de acesso. Estranha resignação possui esta gente da noite de encarar uma enorme espera, que noutra circunstância seria inaceitável. Mas, em se tratando de danceteria, fila grande é sinal de prestígio da festa; enfrentá-la parece conferir status.
Foi em meio ao empurra-empurra na entrada da boate que ele a viu pela primeira vez. Ela já estava na antessala da pista de dança e não parecia ter enfrentado aquela espera toda, parada ali, serena e impassível como se fosse mais um dos pilares que decoravam o ambiente. À sua volta agitavamse mais três ou quatro mulheres: uma seguramente mais bonita, outra um tanto gorda, e mais as que não se destacavam por traço algum. Talvez porque Silvio não tivesse encontrado tempo de prestar atenção às outras. A mulher de camiseta branca monopolizara. Ela vestia um jeans básico, os acessórios eram minimalistas. A maquiagem tinha aquele toque estudado de “tô nem aí”. A pele, o cabelo e as unhas eram bem tratados, mas denotavam mais saúde e asseio do que cuidados de beleza propriamente; nem esmalte colorido, nem batom carmim. Ninguém teria o menor pudor de beijar aquela boca que se oferecia sem interpor obstáculos de qualquer cor. Havia só um brilho transparente que tornava seus lábios entreabertos ainda mais oferecidos.
Silvio apanhou-se revisando todos estes detalhes, e ficou surpreso de se descobrir capaz de pensamentos tão lascivos, ainda mais despertados por uma jovem que recém vira, e que nada tinha de chamativo para ter aprisionado seus sentidos. A garota não tinha, como seus pares, roupas coloridas, nem colantes, nem decotadas. Só o sapato exercia um poderoso fascínio – era um scarpin.
O sapato de Vivian era clean, como diriam os designers. Tinha o bico fino, sem que fosse excessivo a ponto de apertar os dedos. E tinha salto! Daqueles que são capazes de traçar o destino de uma mulher: finos, mas nem tanto, e suficientemente altos para que ela empinasse a bunda sem perder a estabilidade, garantindo um jeito natural de andar. Nada mais grotesco que uma fêmea que tenta se equilibrar sobre saltos dos quais não tenha o menor domínio. Mais estranhos devaneios! – surpreendeu-se Silvio, agora focalizando sua atenção no ambiente, pois já ingressava na danceteria, e era atingido pela transição do ambiente iluminado para a semi-escuridão piscante. Antes que mergulhasse de vez no turbilhão de sons e luzes, pôde ver que ela passara à sua frente. A mulher voltou-se para ele e, protegida pelo barulho à volta, disse, em volume suficiente para que Silvio não tivesse dúvida: – Eu vou te foder! Falou a indecentes centímetros da boca de Silvio, a ponto de que ele lhe sentisse o hálito fresco. Certeira como deu o bote, virou-se, deu alguns passos, e voltou a encarar sua vítima, para depois acrescentar, a uma distância que permitia todas as dúvidas: – Mas só se você quiser! E agora tinha a expressão pueril de quem convidava para a mais inocente brincadeira. Seguiu em frente sem mais voltar-se e desapareceu na multidão, sutilmente requebrante.
Silvio ficou cheio de incertezas sobre esta última frase. Teria entendido bem naquela distância e em meio à música ensurdecedora? Não, não… Se entendeu mal alguma coisa, deve ter sido a primeira frase. Com tanta mulher preparada ali em volta, porque justo ela diria uma coisa dessas a um estranho, assim a queima-roupa? Logo ela com seu jeito nada vulgar, tão elegantemente basiquinha.
Silvio não tornou a ver a mulher naquela noite, por mais que percorresse o ambiente, demorando-se em perscrutar cada nova posição. Não dançou, não bebeu, não conseguiu mais pensar noutra coisa. Nem dormiu, nem trabalhou direito na semana que se seguiu. Pela primeira vez, em anos, estranharam a conduta pouco profissional e desconcentrada de Silvio. Até o contínuo comentou o caso com o chefe de seção.
Voltou mais três sextas seguidas à mesma danceteria. Nem sinal dela. Da última vez, arriscou-se a perguntar pela moça, tentando descrevê-la aos porteiros e a um barman. Nada! Este último até disse que Silvio devia estar enganado. Naquele ambiente não costumavam aparecer mulheres tão simplesinhas. Eram todas gatas produzidíssimas.
Silvio tornara-se um ser ainda mais apático depois daquela experiência. Com o tempo, voltou a agarrar-se ao trabalho como antes, logrando a promoção que perseguia quando teve aquela experiência com Vivian.
Num final de expediente, saía do banco em direção ao estacionamento para apanhar seu novo Passat alemão. Estava confiante, via a gerência cada vez mais próxima e seus planos de construir um futuro confortável ganhavam força. Uma vida de economias lhe tinha permitido amealhar uma soma razoável em investimentos de longo prazo. A exceção que se permitira fôra o Passat, mas desconfiava que este luxo só lhe ocorrera depois que colocara os olhos em Vivian.
Já chegava perto do Passat quando um som estridente desviou sua atenção. Uma mulher disparara o alarme de seu Pálio, atrapalhada com as compras do supermercado. Por Deus! Era ela – constatou Silvio. Uma eternidade transcorreu movimentando o turbilhão de pânico em sua mente, até que ele irrompeu na direção dela, sob pretexto de ampará-la com as sacolas.
Mostrando-se insegura com o estranho que se aproximara subitamente, Vivian esboçou um gesto nervoso.
– Posso ajudar? – perguntou Silvio.
– Oh, por favor, não se incomode, eu sou desastrada mesmo – desculpou-se ela.
– Deixe que eu pego – abaixou-se Silvio, apressando-se em alcançar o pacote para poder prolongar o encontro, mas ela já embarcava no carro.
– Muito gentil, obrigada – desvencilhou-se ela, já dando partida ao motor.
Ele não podia deixá-la desaparecer novamente.
– Lembro de você da danceteria! – disparou, sem avaliar direito.
– Danceteria? Acho que você está enganado. Não faz o meu estilo. Com licença? Obrigada pela ajuda, mas desculpa, estou com pressa.
– Como eu poderia me enganar, muito menos esquecer o que…
– Moço, onde está querendo chegar, isso não tem a menor graça. Não perca seu tempo comigo! – E arrancou sem dar chance de ser detida.
Ele conhecia agora a placa do Pálio branco, e foi através dela, usando de seus contatos nas repartições, que voltou a contatar Vivian.
Quando o telefone dela tocou, e Silvio se deu a conhecer como o sujeito da danceteria, ela desligou. Em nova tentativa, Silvio agora identificou-se como o cara-de-pau do estacionamento. Ela então decidiu que era o momento de ceder. Simulando uma resistência que não pretendia, concordou em vê-lo depois que ele se desfizera em esforços.
No primeiro encontro, a conversa fluiu agradável, e Silvio não ousou quebrar o encanto com o assunto da danceteria. Ela relatou que estudava arquitetura, mas teve que interromper por falta de condições financeiras. Perdera os pais num acidente, familiares não havia que se dispusessem a ajudá-la. O único irmão morava no exterior e nunca houvera sintonia entre eles.
– É um avarento sem caráter – limitou-se a comentar Vivian, não dando maior abertura para mais perguntas sobre a família.
Com o tempo, demonstrando depositar em Silvio uma confiança crescente, Vivian conduzia o rapaz a um sentimento de responsabilidade diante da alma desamparada da moça. E ele ficava cada vez mais distante de encontrar coragem para reportar-se ao enigma da danceteria. Juntos, nunca foram dançar. Limitavam-se a bons jantares, um filme no cinema, ou em casa preferivelmente.
Faziam amor no apartamento de Silvio, mais aconchegante, porque Vivian nunca se deixou demorar em companhia dele no quarto-e-sala de segunda em que vivia. Tampouco concordava em morarem juntos. À medida em que aumentava nele o desejo de compartilharem a vida, mais lhe parecia importante resgatar aquele único ponto nebuloso que se interpunha na relação deles – o primeiro encontro na danceteria. No entanto, sentia que insistir no assunto poderia desandar a relação, e ele já não podia correr este risco. Cogitou de negar a si próprio o que tinha acontecido naquela danceteria, mas aquelas primeiras frases dela voltavam sempre à sua mente – uma plenamente audível e contudente; a outra frase, sussurrada e dúbia.
A dúvida e a covardia em confrontar Vivian desmontavam sua firmeza de caráter. Queria acreditar que não era importante esclarecer aquilo tudo, mas crescia nele a necessidade de entender. Afinal, eles já eram quase uma só pessoa, Silvio pagava a faculdade de Vivian, e até seus investimentos agora podiam ser movimentados por ela também.
O tormento da dúvida corroeu lentamente a lucidez de Silvio. Ano e meio depois do primeiro encontro já dependia de tranqüilizantes para aplacar suas emoções conflitantes. Seu descontrole culminou no dia em que, próximo à chegada de Vivian à sua casa, entregou-se ao ato de desespero, preparando o laço de corda em volta do próprio pescoço.
– Vou me matar! Não suporto mais ser deixado de fora do seu mundo. Que eu morra! – é o que você deseja, não é? Vamos, admita que quer me ver morto! – alucinava ele, estendendo, para a amada que chegava, a mão trêmula em busca do gesto redentor.
Ela se aproximara de Silvio a ponto de tê-lo ao alcance do socorro providencial, mas foi com a ponta de seu scarpin que Vivian fez um certeiro movimento derrubar a cadeira em que ele subira.
– Mas só se você quiser – sentenciou Vivian, simulando uma comoção que apenas os agonizantes inspiram.
Esta postagem foi publicada em 15 de março de 2013 e está arquivada em Paralelas.



