Paralelas
Esta postagem foi publicada em 22 de março de 2013 e está arquivada em Paralelas.

De partida

DE PARTIDA

Logo que o dia clareou já estava de prontidão. A mala, feita e refeita no dia anterior, repousava no canto do quarto à espera de mais um item, se necessário, antes de ser fechada para seguir viagem. O café reforçado lhe deu ânimo extra para terminar de checar tudo antes de se vestir e de se maquiar para seguir rumo ao aeroporto. Tinha tempo de sobra, mas por precaução, como sempre, preferia adiantar tudo, evitando imprevistos de última hora.
Quando fechou a mala, olhou ao redor e a casa respirava um profundo silêncio. Penumbra que deixava quase tudo sombrio, apesar do sol que despontava na rua em um céu azul naquela manhã de primavera. Alguns móveis ficaram. O sofá, os armários e a pia da cozinha, uma cama de casal e a cômoda no quarto, alguns livros na estante do escritório e um tapete no corredor de entrada do apartamento. Todo o resto tinha sido doado, vendido ou levado por ele, quando a separação tinha se consumado. Tudo em paz, sem litígio, sem rancor. Era o que bastava, mais do que o necessário agora, quando ela optava definitivamente por ir embora dali.
A viagem era apenas um pretexto porque pretendia não voltar. Ou melhor, sabia que não voltaria por livre opção. Melhor assim, sem grandes coisas para administrar na sua ausência, além do pagamento das contas básicas para manutenção do apartamento, o que poderia ser feito a distância, e uma faxineira disponível eventualmente para manter a casa limpa, antes que alguém a alugasse, o que lhe renderia mais algum dinheiro no final do mês para custear outras despesas.
Nunca poderia imaginar que um dia conseguisse se desapegar tanto assim de suas coisas, conquistadas com muito trabalho e dedicação. E se sentiu muito leve ao sair para a rua e chamar um táxi, sem olhar para trás. Nada pesava em seus gestos naquele momento de leveza, sem culpa ou medo. Sensação estranha de felicidade ao deixar tudo ali e partir para longe, bem longe, com um sorriso nos lábios. Era quase tudo perfeito, estranhamente perfeito, como se algo já estivesse sido traçado antecipadamente para transcorrer assim, desse jeito, sem surpresas ou desatinos.
Ao chegar ao aeroporto parecia que nada mais naquela cidade lhe era familiar. Uma estrangeira em plena terra natal, prestes a ir embora para um lugar ensolarado e quente o ano todo, com praias de águas cristalinas, longe, bem longe desta cidade horrorosa que ela um dia acreditou ser ideal para ficar e constituir a família que nunca teve. Grande mentira em que se enredou com as próprias ilusões. Nada é o que imaginamos que poderá ser. Tudo é o que tem que ser. Queiramos ou não, tudo flui aleatoriamente, sem a nossa interferência, alheio ao nosso desejo, que lateja, que quer, mas pouco pode diante da vida.
Achou que era muito melhor assim, deixar tudo ser e acontecer simplesmente, sem expectativas frustrantes, que nos derrubam inevitavelmente, na maioria das vezes. Olhou ao redor e, felizmente, não conhecia ninguém na fila do embarque. Rostos estranhos, indiferentes. Uma nova vida deveria, obrigatoriamente, sempre começar desta maneira. Com nada, absolutamente nada que lembrasse a anterior. Sentou-se na poltrona junto à janela. Tinha claustrofobia, mas o medo de voar era superável, por algumas poucas horas, amenizado com calmantes para dormir, embora nunca dormisse até chegar ao seu destino.
Desta vez seriam quase cinco horas até lá. Uma eternidade suportável diante das perspectivas que se abririam a partir de agora. Sabia das oportunidades que a aguardavam, em tratativas promissoras de um emprego razoável para quem não tinha mais expectativas de enriquecer aos 50 anos. E quem queria saber de dinheiro, quando o melhor era a liberdade que se descortinava logo ali, sem promessas, sem ganância, sem nada, apenas a vontade de ser e estar onde e com quem bem entendesse, sem passado e nem futuro. Só o presente, como agora, em pleno voo, a alguns minutos antes da aterrissagem, vislumbrando a paisagem tropical pela janela logo abaixo, muito próxima de seu destino.
Tinha uma certa reserva financeira para os primeiros meses de aperto. O emprego lhe daria uma segurança para subsidiar as despesas básicas no apartamento à beira mar alugado de um amigo. Tudo agora parecia tão simples, tão mágico, sem amarras, sem atrelamentos, sem sufoco. Apesar de tudo ser, ao mesmo tempo, tão incerto, tão inseguro, tão assustador.
De qualquer maneira, nunca poderia imaginar algo tão libertador. Saiu do aeroporto, pegou um táxi e seguiu para a nova moradia, contemplando o mar de água esverdeada emoldurando o calçadão. Mal entrou no apartamento, largou tudo, trocou de roupa e saiu em direção à rua para respirar a brisa do mar, vestindo um short e camiseta, a procura de uma água de coco no quiosque mais próximo. Sensação indescritível, mesmo que já tivesse feito isso milhões de vezes na vida. Que coisa maravilhosa era estar ali agora, sozinha, ouvindo seus próprios pensamentos e o barulho das ondas quebrando na praia.
Eram quase seis horas da tarde, o sol ainda irradiava uma luz suave e o calor de quase 30 graus. Clima morno, suavizado pelo vento, ideal para ficar ali até o anoitecer. Estava a uma quadra de casa, acompanhada de estranhos caminhantes ao seu redor, gente bronzeada, ciclistas e surfistas, pessoas comuns, alheias a ela. Momento ideal para respirar profundamente e saber que este instante poderia se repetir todos os dias, a partir de agora.
Retornou para a nova casa já era noite, descompromissada com tudo. Desfez as malas, olhou ao redor, e viu que tudo estava em ordem, limpo. Poucos móveis, mas o essencial para viver com conforto. Uma cozinha arejada, uma sacada bem iluminada, uma rede e espreguiçadeiras expostas ao sol. Um chuveiro com água abundante, uma boa cama e tudo estava perfeitamente ajustado ao que precisava para ficar ali ou em qualquer outro lugar. Bastava os dias em que, obsessivamente, se empenhava em decorar, trocar, arrumar, enfeitar, se angustiar continuamente para que o apartamento sempre estivesse de acordo com os padrões arquitetônicos ditados pelo marido, um ser atento à algumas futilidades que só agora ela percebia ser totalmente dispensáveis, incluindo ele próprio.
Descartou logo esses pensamentos e foi tratando de organizar suas coisas, buscar algo para comer e dormir. O cansaço não a impedia de estar totalmente à vontade, transitando leve pelos cômodos do novo lar, com vista do terceiro andar para o mar. Era hora de se permitir um repouso aliviado, desta vez em uma cidade desconhecida, ignorada em vários aspectos, sem consulta prévia à internet para obter detalhes antecipados. É bom nos deixarmos surpreender pela vida. Sem mapa para nos guiar, o que pode ser um bom começo para executarmos novos planos, sonharmos novos sonhos, irmos em frente sabe-se lá para onde.
E, às vezes, não importa para onde estamos indo, realmente. Ela sabia que, neste momento, era mais importante simplesmente ir, e foi. Agora, o caminho estava ali, totalmente inexplorado, aberto para o novo, longe de tudo o que já não existia mais.
Claro que os fantasmas ainda a rondariam em pensamentos nas noites insones, em dias de angústia e solidão. Os medos sempre nos acompanham, ainda que a viagem nos leve para longe, muito longe deles. O que não existe mais se transforma em outra coisa, lembrança, memória, saudade ou assombração em noite de lua cheia. Um uivo pode nos acordar para a realidade ou para a fantasia do chamado desconhecido.
Nada, porém, a afastaria do desejo de ser e estar ali. Aprender a carregar seus fantasmas e afugentá-los quando necessário era a grande lição. Naquela noite até desejou que ele estivesse ali, junto dela, abraçados, olhando o mar. Era a saudade que veio sorrateira e se acomodou na poltrona ao lado da cama.
Da dor, sabia ser inevitável, até suportável. Do amor, tinha a certeza de ser incurável. Com todas as divergências, amaria aquele homem para sempre. Só precisava aprender a viver sem ele.
Por isso, foi para não voltar. Para não atender mais o telefone quando ele ligasse, para chorar todo o amor quando quisesse, sozinha, tendo apenas o céu e o mar por testemunhas do sentimento que era só dela, agora. Naquela noite sonhou com ele, e acordou chorando.
Ao longo de seis meses soube conduzir a nova vida de forma que já se sentia totalmente adaptada à pequena cidade à beira mar. Trabalho, alguns poucos amigos e a companhia de um cachorro, fiel companheiro, que lhe acompanha nas longas caminhadas pela orla. Não havia mais mágoa, ressentimento, nem rancor. Apenas o amor permanecia dentro do peito, um hóspede que se negava a ir embora, que insistia em não fechar a conta e em lhe acompanhar da manhã à noite, silenciosamente.
Naquele dia, em especial, após o café, saiu para aproveitar o domingo de sol despretensiosamente na areia, junto às rochas, num trecho mais deserto da praia. Ficou ali, estendida no sol, olhando aleatoriamente um ou outro veranista que circulava, explorando o local. No final da tarde ainda estava ali, quase inerte, olhando o mar. E de tanto olhar ficou sem se mover por várias horas. Ninguém reparou naquele vulto solitário quando a noite chegou. A lua deixava um rastro de luz na espuma das ondas que ela observava, agora, com o olhar distante, embaçado, estranhamente embaçado, talvez de maresia, talvez de lágrimas. Decidiu ficar ali, imóvel, sem qualquer medo ou assombro, sem qualquer expectativa, até se deixar vencer pelo cansaço, quando já não conseguia mais olhar o breu que, aos poucos, foi invadindo seu ser, corpo inerte, cansaço, dormência e um sono profundo que não conseguiu dominar.
Na segunda-feira, os colegas de trabalho estranharam o atraso, mais do que justificado pelo final de semana prolongado que ela, talvez, tivesse optado em estender por mais um dia. Ou dois, ou três, o que já fugia da normalidade. No apartamento, os latidos do cachorro chamaram a atenção de vizinhos que arrombaram a porta para ver o que ocorria. O animal procurava desesperadamente pela dona nos cômodos da casa.
Longe dali, junto às pedras da praia mais afastada, ela parecia a mesma de sempre, decidida a partir para não voltar. Um pescador solitário foi o único a lhe fazer companhia, silenciosamente. Antes de se afastar, deu uma última olhada naquele corpo moreno, bronzeado de sol, e teve a impressão de que viu uma lágrima escorrer pelo rosto e um quase sorriso se apagar serenamente, antes do sol se pôr.

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