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Esta postagem foi publicada em 28 de março de 2013 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Pela frente

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Pesquisa de opinião é a oportunidade de nossa insignificância conseguir alguma significância (quando somada a outras insignificâncias).

PELA FRENTE

“Tinha a vida inteira pela frente”! Esta frase sempre é ouvida quando há uma tragédia (em qualquer dimensão), envolvendo a morte de uma pessoa jovem. Por “jovem”, entendamos alguém com idade até 20, 22 anos. Na realidade, isso já configura um preconceito contra todos os que não se encaixem no perfil etário abordado e só pode ser levado em conta por ser fruto de um estado emocional exacerbado. E desculpado, justamente, por isso!
Mas há uma perturbação lógica nesta expressão e, talvez por isto, ela me incomode tanto. Se alguém morrer com 25, 30 anos, um pouco além daquele limite mencionado acima, não teria ele sua vida inteira pela frente? E se tiver mais idade? Quase nos é lícito fazer uma afirmação com características de uma lei da Física: “Quanto mais o acúmulo de dias vividos for pesando nas nossas costas, inversamente proporcional será o peso dos dias por virem a nos atingir de um determinado ponto em diante”. Entretanto, sempre haverá um futuro, o qual somente poderá ser medido por quem nos sobreviver.
Tendo 68 anos (ou 268, como querem alguns dos meus alunos; ou “todos”, como querem muitos outros, imitando o Chaves — o humorista, não o ditador; esse era o Chávez), por isso, digam-me cá: seria proibido para mim, ter a mesma expectativa de uma vida inteira pela frente só porque a minha existência para trás é cada vez maior? Posso garantir-lhes que gostaria de poder desfrutar dessa benesse de uma existência bem longa, desde, é claro, que ela fosse como tem sido até agora. Tenho projetos, vontades, ideias, esperanças. Em suma, tenho muitos planos. Não importa ser, estatisticamente, minha perspectiva de dias vindouros menor que a de uma pessoa mais jovem. Eu também tenho uma importantíssima vida inteira pela frente. E ela é minha. Aliás, meu primeiro texto aqui no Panorama, em 2005, foi sobre este mesmo assunto. De fato, nós nunca saberemos a extensão da estrada ainda a ser percorrida. Tudo é inteiro pela frente, não importando o tamanho desse “inteiro”.
Já que estamos falando sobre isto, aproveito para chamar outra frase igualmente famosa, em trânsito pelo mesmo caminho dessa, objeto de nosso comentário de hoje. É bem conhecido o ditado que afirma ser “hoje, o primeiro dia do resto de nossas vidas”. Isso me leva à conclusão de sempre existir muito tempo a ser vivido, não importa a duração desse muito. O total será sempre o máximo que conseguiremos. A nós não é dada a consciência desse total. Resta-nos, apenas, vivê-lo da melhor forma!

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