Paralelas
Esta postagem foi publicada em 28 de março de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Abstinência

O primeiro sintoma foi a súbita dificuldade com as cartas. Mantinha o hábito do manuscrito sobre papel, apesar do predomínio da comunicação digital, que usava com desembaraço, mas apenas profissionalmente. Para os amigos, os familiares, as namoradas, preferia a intimidade das missivas tradicionais, exceção feita para os assuntos muito breves ou urgentes, quando recorria ao telefone e aos e-mails. De resto, escrevia cartas porque lhe agradava imaginar o destinatário tendo em mãos a mesma matéria que ele tocara, e onde imprimira sua marca pessoal.
Assim, escrevia para os amigos homens contando seus recentes sucessos nos negócios, dando conta das gostosas que andava traçando, da pelada do sábado, da cervejada do domingo. Escrevia para as mulheres sobre as viagens que pretendia empreender, o filme sensacional que vira no cinema, o restaurante incrível que conhecera. Escrevia para a família admitindo já pensar em casamento; que reduzira as noitadas e o excesso de velocidade.
De repente, já não conseguia escrever, e julgou que fosse passageiro.
Desde garoto jogava futebol e se afirmou na posição de goleiro. Salvou o time em muitas ocasiões, ganhando fama na várzea. Até que ouviu falar que futebol é o circo do povo, que desvia o foco do que realmente importa. Com o tempo, já não suportava jogar, e julgou que fosse um surto.
Um de seus prazeres era a cervejada dos domingos. Até que foi confundido com vagabundo, preso, fichado. Humilhado! Já não sabia beber, embriagava-se toda vez, e julgou que poderia parar quando quisesse.
Fazia sexo até quatro vezes por semana, com frequência sem repetir parceira. Até que a Aids lambeu-lhe a espinha. O susto afetou seu orgulho masculino, que já não se sustentava com o mesmo garbo. Admitiu então que a coisa começara a ficar séria, mas julgou que fosse psicológico.
O conjunto dos novos acontecimentos agora lhe tirava o sono. Contou carneiros, irritou-se. Resignado, aproveitou as noites para fazer um balanço da própria vida. Acreditou que o sono voltaria. Ouviu dizer que homens também sofriam de revés hormonal.
Com o avançar dos anos e a ânsia imposta pelas indômitas novidades que lhe atormentavam corpo, mente e alma, agarrou-se aos prazeres da mesa. Descobriu, com o tempo, que o sobrepeso notório não seria seu desconforto derradeiro. A gordura visceral se apropriara de todos os espaços. Recentemente, não conseguia mais res-pi-rah-ahahahr…
Passou!

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