Causou espécime a declaração do vereador Valdecir Vargas de Almeida de que a homossexualidade é coisa do diabo. Ora, o fenômeno da homossexualidade é algo amplamente estudado na área da saúde!
É muito difícil travar-se discussões construtivas sobre temas como este quando opiniões em contrário são baseadas apenas em posições dogmáticas. Inúmeros são os exemplos históricos em que os dogmas levaram à opressão. Talvez o mais latente seja o da perseguição a Galilei Galileu, quando ousou afirmar que a terra girava em torno do sol, o que custou-lhe apodrecer numa prisão. Mas o exemplo mais triste e impactante é certamente o de que os negros eram considerados coisa, e não seres humanos. Isso, no apogeu do cristianismo.
Ainda hoje, nos Emirados Árabes, por exemplo, é imoral que a mulher se alimente na frente dos homens, mostre o rosto a estranhos ou, até mesmo, deixe que sejam avistados seus tornozelos. Respeito essa doutrina, pois advém de posições culturais e possui o mesmo valor social que a infeliz afirmação do referido vereador.
Eu, que fui criado numa família extremamente cristã, não imaginava que apenas um terço da população mundial seguisse os ensinamentos de Jesus Cristo. No Japão, por exemplo, a população segue os ensinamentos de Buda. E não existe povo mais educado e mais humano do que o japonês…
Então, trago a sugestão de que respeitemos as diferenças culturais dos povos, mas que não nos deixemos levar por dogmas apenas. Sabe-se que a Bíblia foi escrita em torno de três anos após a morte de Jesus Cristo. Todavia, isso não invalida os ensinamentos desse livro sagrado, até porque foi uma maneira de educar uma civilização. E, para o seu tempo, a Bíblia estava bem adiantada.
Pois bem, a psicologia nasceu lá pelo ano de 1879, com o alemão Wundt; e a psicanálise, há cerca de cem anos, com Freud. Logo, é evidente que todos os ensinamentos bíblicos que se referiam a aspectos psicológicos, dentre esses os que tratam da homossexualidade, estão totalmente desatualizados.
Nada tenho contra as religiões, mas é duro saber que quanto mais adiantados os povos, menos religiosos são; que os grandes intelectuais são agnósticos; que as pessoas têm de buscar na religião um sentido para viver, quando a vida pode ser sentida em cada planta, em cada vertente d’água, em cada gesto de amor. Mas é bom que tenham colocado Marco Feliciano (sabidamente homofóbico e racista) na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, pois isso proporcionou a todos uma reflexão sobre o papel de negros, índios, gays, lésbicas, enfim, de pessoas que contribuem para a grandeza do País, mas que veem seus direitos sonegados.
Acho que o respeitável vereador taquarense deu uma prova de total desconhecimento da ciência sobre essa questão e ainda se mostrou na contramão da história. Não podemos esquecer que vivemos numa época de afirmação no exercício de direitos: exigimos que deputados corruptos sejam presos; que administradores sejam responsabilizados pela morte de gente em incêndio; que os direitos do consumidor sejam respeitados; que os detentores de cargos públicos tenham seus vencimentos divulgados. Enfim, estamos exercendo nossa cidadania, o que não parece ser respeitado pelo referido vereador e dos que, talvez ingenuamente, deixaram-se levar por ele (que gostaria de manter na defesa das minorias justamente uma pessoa que nega direitos a essa minoria). Infelizmente.
Alziro Espíndola Machado
Advogado, cursou psicanálise na SPOB


