Paralelas
Esta postagem foi publicada em 5 de abril de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Às quintas

– Nunca mais tua boca em mim, jurou Eliana, quando Carlos bateu a porta. Ele nem se deu conta. Saiu do banho exalando a fragância barata daquele sabonete vagabundo, brotando dos poros fluídos do sexo em encontros fortuitos naquele apartamento alugado em um prédio de classe média, há tantos anos, que ele já nem lembrava mais. Nem ela.
– O tempo faz isso com todo mundo. Até com os amantes. Ela sabia disso desde a primeira vez, há muitos anos, quando Carlos a convidou para um café após o almoço.  Desde então, as quintas-feiras à tarde se transformaram. Para ele, um momento fugaz, de relaxamento, gozo oportuno para descarregar as tensões retidas de um casamento que já não acontecia mais. Para ela, o encontro com o homem, com o amor, com o sentido da sua vida.
– Nunca mais teu cheiro em mim, esbravejou Eliana, enquanto Carlos manobrava o carro na garagem aliviado, satisfeito, farto do instinto mais primitivo. Ele nem se deu conta. Saiu acelerando o automóvel luxuoso, quase uma ofensa circulando potente, falicamente, pelo bairro simples que os abrigava entre lençóis.
– A vida faz isso com todo mundo?, questionou Carlos, negando para si mesmo a resposta de quem nunca se imaginaria presa fácil do delírio, da paixão, da entrega. Ele sabia disso desde a primeira vez, há muitos anos, quando a convidou para o tal café após o almoço. Desde então, todas as suas quintas-feiras à tarde se transmutaram, dia a dia, do alívio puro e simples que jorrava fácil até os momentos de encontro, de permissão, sintonia entre  homem e mulher, quase amor liquefeito em esperma.
– Nunca mais, gritou Eliana, sozinha naquele quarto que exalava agora o cheiro dos dois entranhado naquelas quatro paredes que sabiam mais de tudo do que eles próprios.  Entre lágrimas engolia a saliva com o gosto dele, sentia a pressão entre suas coxas e o medo que a sufocava subindo pela garganta.
– O amor transforma tudo. Até os amantes das quintas-feiras à tarde, admitiu ele, depois de deixar o apartamento, acostumado à fragância barata daquele sabonete vagabundo que ele usava há tantos anos que já nem se importava mais. Nem ela.
– Nunca mais teu corpo em mim, ela vomitou em palavras a náusea da rejeição, o nojo da submissão, a fúria da paixão, quando ele já estava longe dali, retornando para a outra vida possível.
– O desvio inesperado logo à frente o obrigou a assentir e seguir com um sorriso, em meio ao trânsito caótico da volta ao trabalho, subitamente, rumo ao lado oposto da cidade, o contrário dele mesmo, o avesso de todas as possibilidades. Um berro a plenos pulmões lhe rasgou a voz de contentamento: – Hoje é quinta-feira, e para sempre será!

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