Paralelas
Esta postagem foi publicada em 12 de abril de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Meu tio-avô

Meu tio-avô

Tio Oscar, irmão de meu avô Arthur, era o solteirão da família. Tinha por mim uma estima especial, que eu retribuía, em parte porque admirava sua liberdade. Ele não costumava ter pressa, se estendia nas conversas, não havia ninguém esperando por ele. Sempre tinha histórias engraçadas ou apavorantes para relatar, e eu absorvia cada palavra.
– Não enche a cabeça da guria com essas tolices – repreendia meu avô.
Na primeira oportunidade, quando ficávamos sozinhos, eu tratava de retomar o assunto com o tio. Era uma troca muito prazerosa para nós dois.

Todas as manhãs, quando passava pela casa dele a caminho da escola, eu cumprimentava da rua – “Hep!” E ele respondia de dentro da casa – “Hep!”
Quando adoeceu, agravando-se a fragilidade cardíaca, passaram a me perguntar, todo meio-dia, se “Tio Osca” respondera o “hep!” Senti que eu tinha a missão de monitorar o tio. Certa manhã meu cumprimento não obteve resposta. Cheguei à porta dele, estava aberta, entrei chamando seu nome, ele respondeu do quarto num som estranho, que soou lúgubre. Fui até ele mesmo assim. Tomei a mão do tio em tempo de amparar seu último suspiro. Pareceu que ele só esperava por aquela segurança para entregar-se à morte. Chamei pelos vizinhos da serraria e pedi que buscassem meu avô às pressas. Sugeriram ficar com o defunto, que eu fosse solicitar ajuda. Achei que não era hora de deixar meu tio-avô sozinho com estranhos. Quando o apoio familiar chegou, despedi-me do falecido e segui para a escola. Só chorei na manhã seguinte, quando o vi descendo à terra, e percebi que nunca mais ouviria seus relatos.

Muitos causos depois, meu avô Arthur veio morar conosco quando, já viúvo há vários anos, caiu doente também. A cozinha da casa mudou de lugar, cedendo espaço aos novos aposentos do pai de minha mãe. Ele não teve nada grave, foi apagando devagarzinho, vítima do desgaste geral das peças, como prenunciava seu histórico de vida. Era um homem forte, sem ser gordo, quase dois metros de altura. Levantava, sozinho, uma carreta de bois, quando ela atolava e nem Sol e Luar, dois bois enormes, eram capazes de movê-la sozinhos. Tampouco queixava-se do que quer que fosse. Resolvia qualquer parada com a mera dureza de seu olhar, que sempre nos manteve – os netos, a uma considerável distância. A propósito disso, eu não entrava no quarto dele sob pretexto algum. Parecia sempre que ele me crivaria com aquele olhar duro. Seu jeito formal nunca foi receptivo à minha leveza de espírito.

Quando, enfim, fiquei sozinha com ele, à noite, porque minha mãe ajudava a cuidar de um parente enfermo, tudo tomou um rumo descarrilhado. Acordei com sede por volta das três horas da madrugada. Esta já foi a primeira coisa estranha, porque eu nunca precisava levantar para beber água. Já na cozinha, lembrei que estivera sonhando com “Tio Osca”, o irmão de meu avô. Sonho estúpido, ele me chamara de bugra e me repreendera por andar só de calcinhas pelo pátio, como eu realmente fizera na minha infância. Confusão de sonho, pois quem me reprovava por isso era meu avô Arthur, e não “Tio Osca”, o bonachão tolerante.
Estava envolvida com estes pensamentos, e já me preparava para voltar ao quarto, quando escutei, na peça ao lado, um suspiro profundo, como nunca ouvira de meu avô. Apaguei a luz e apressei o passo, mas voltei quando já estava na sala. Da porta de acesso à cozinha, passei só a cabeça pela cortina e perguntei com timbre inseguro:
– “Vô, tudo bem aí?”
–  Hep! Foi a resposta. Aquilo me soou familiar e tranqüilizador. Sonolenta, voltei para a cama.

Às seis horas da manhã, quando minha mãe voltou de sua jornada solidária no hospital, já encontrou meu avô inerte, o corpo frio. O médico, chamado para atestar o óbito, garantiu que ele havia partido entre duas e três da madrugada. Minha mãe ficou inconsolável porque seu pai fizera a passagem em plena solidão. Eu, no entanto, sabia que ele estivera amparado por alguém do seu sangue, que o protegera, e a mim, oferecendo-nos um final feliz. Como em muitas das histórias que ouvi na minha infância. Hep!

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