Do meu tuíter @Plinio_Zingano – De uma redação do Ensino Médio: “Os livros queimavam porque eram infláveis”.
FELICIDADE
Ao computador, dava os retoques finais no texto anterior, publicado no dia 25 de abril, fazendo uma das três coisas que mais gosto de fazer na vida. As outras são ler e dar aula — bem, existe uma quarta atividade,… mas deixem pra lá! Então o telefone tocou. Ele fica na prateleira de livros ao lado da escrivaninha. Houve uma rápida desconcentração, porque ao escrever consigo alhear-me e viajar nas palavras e frases.
Recobrei o controle e atendi o chamado. Do outro lado, uma voz masculina, jovem, indagou se eu poderia responder a uma pergunta elaborada por um grupo de voluntários do bairro Santa Terezinha. Ao ouvir a expressão “responder a”, embora achasse estranho “um grupo de voluntários” estar promovendo aquela atividade, meu espírito ficou alerta. Não gosto de participar de pesquisas e levantamentos, geralmente, levados a efeito por empresas de márquetim para posicionamento comercial de seus produtos-clientes. E não quero participar, como já escrevi, porque não acredito nelas, as pesquisas; minha opinião, como a de todos, se perde no universo de uma pesquisa; é, somente, um número vazio. Essa convicção da minha nulidade, confesso, me irrita. Por isto, tento evitá-la. Alguém pode julgar isso uma bobagem, explicando que as companhias precisam desse fidibéqui dos consumidores para apresentar melhores serviços e produtos. Entretanto não posso deixar de pensar nas operadoras de telefones celulares com todas as suas pesquisas de opinião, etcétera e tal.
Neste caso, quando já ia expor ao entrevistador minha convicção, ele formulou a pergunta que me estimulou: “Qual é a receita para felicidade?”. Diante dela, fui mais convicto ainda: “Não posso responder a essa pergunta, pois não conheço a receita e não preciso dela. Eu, apenas, sou um cara feliz. Naturalmente”.
Pessoal, nunca respondi a um questionário tão à vontade. Minha resposta, porém, parece não ter agradado muito ao curioso. Pelo menos foi a impressão passada por ele naquele tipo de comunicação, a estesiológica, quando não precisamos ver nosso interlocutor. Bastou interpretar algumas palavras tartamudas emitidas por ele.
O pesquisador mostrou não ter compreendido minhas palavras e tentou me levar para o caminho da dúvida. Como eu insistisse na resposta, ele contra-atacou: “Mas eu estou falando na felicidade genuína”.
Então, sim, as coisas se esclareceram. Ele já sabia qual resposta eu deveria ter dado. Pouco lhe interessava a minha crença real. A felicidade em questão era a “genuína”, não uma qualquer, que as pessoas podem gozar honestamente e com a qual convivem muito bem, sem sentir falta de outra. Por fim, o entrevistador articulou algumas palavras desconexas e, cheio de ironia, desejando que eu continuasse com o meu arremedo de felicidade, desligou.
Não era pesquisa de companhia de telefone celular. Aposto em algum grupo religioso, querendo me “dar” a receita da felicidade genuína.


