Sérgio sempre aproveitou todas as oportunidades que a vida lhe oferecia. Bastava tomar conhecimento de que algo importante estava acontecendo na cidade – uma festa, um palestrante renomado, um jantar com pessoas influentes, e pronto. Ele logo dava um jeito de ser convidado, infiltrado ou entrar de penetra mesmo. Nada que um bom papo com o segurança não convencesse. E isso era preciso reconhecer, ele tinha o dom da persuasão.
O que interessava, na verdade, era comparecer e ser visto. Sabe-se lá os frutos que poderia colher desses encontros. Era assim que Sérgio pensava. Tudo tinha um por que, ao menos na sua fértil imaginação. Nunca se aproximava de alguém por acaso. Oportunista dos bons, pós-graduado na malandragem, especialista em se dar bem, acabava levando algumas vantagens, de um jeito ou de outro.
Frequentemente era visto em fotos de colunas sociais de jornais e revistas abraçando celebridades e brindando a vida. Sorriso largo, boa pinta, aparência impecável, até que não era de se jogar fora. A mulherada, ao menos, adorava a sua presença, mesmo sem saber exatamente quem era aquele sujeito cheio de galanteios, floreios e gentilezas.
Não raras vezes, eram as próprias damas da sociedade que o bajulavam e o incluíam em listas de jantares e eventos espetaculares, sem qualquer custo para o cidadão, diga-se de passagem. Um autêntico bon vivant, como naqueles filmes antigos, quando ainda não havia outro termo para designar esses cavalheiros, hoje mais conhecidos como gigolôs, sem talento para trabalho algum, mas cheios de disposição para se encostarem onde fosse mais conveniente no momento, oferecendo em troca uma excelente performance sexual, caso houvesse necessidade.
Os homens o olhavam com desconfiança em qualquer ocasião. Das rodas de bebedeira e conversas sobre mulheres, ele não participava. Se limitava a sorrir e a bebericar, entre olhares furtivos para as beldades femininas que o circundavam. Entre lábios semicerrados, eram as moças mais jovens, de famílias abastadas, que mais se interessavam por aquele moreno sedutor.
Muitas ficaram pelo caminho, entre lágrimas e desgosto. Outras ainda alimentavam a esperança de tê-lo como pai de seus filhos. Até as casadas suspiravam, mesmo sabendo da aura oportunista que o envolvia. E assim Sérgio conduzia seus dias, uma hora aqui, outra ali, circulando nas altas rodas, sem profissão, sem destino, sem família, sem ninguém.
Sabia que uma hora encontraria a mulher perfeita, capaz de lhe satisfazer plenamente, o que era algo quase impossível. Para ele, não bastava a beleza física, era preciso dinheiro, status, ótimos relacionamentos e uma boa dose de ingenuidade para lhe dar cobertura em eventuais deslizes. E foi então que um dia aconteceu.
Apaixonou-se por uma dessas loiras platinadas de família muito rica e foi plenamente correspondido. Entre namoro, noivado e o dia do casamento passaram-se menos de seis meses. Até que chegou o grande dia, o maior acontecimento dos últimos anos na cidade, uma cerimônia inesquecível para marcar aquela união. O casamento do século.
Igreja lotada, decoração impecável, orquestra ao vivo e ele ali, no altar. Que mais poderia desejar para si, no auge dos seus 40 anos? Com o atraso tradicional, a noiva, radiante em seus 21 aninhos, entra pela porta principal, amparada pelo pai, e tudo se transforma em luzes e sons. Um conto de fadas e ele a recebe com o olhar brilhante, lábios entreabertos, pálido de emoção. A vida lhe presenteava com o melhor, minutos antes de ser arrebatado pela resposta da noiva diante do altar, ao padre que insistia, já pela terceira vez:
– Aceita Sérgio como seu legítimo esposo?
– NÃO, gritou a noiva para não deixar nenhum rastro de dúvida de seu amor pelo melhor amigo dele, que a esperava na porta da igreja, pronto para fugir em disparada.
Esta postagem foi publicada em 17 de maio de 2013 e está arquivada em Paralelas.


