Paralelas
Esta postagem foi publicada em 24 de maio de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Não quero mais poupar a louça

Não quero mais poupar a louça

Acho que é da cultura do imigrante germânico zelar para que as coisas durem indefinidamente e, de preferência, possam ficar de herança para as gerações futuras. Com nome e sobrenome alemão, eu não poderia mesmo ter saído diferente. Meu apego às coisas é algo que me incomoda mais a cada dia que passa.
Tentando racionalizar a origem deste traço de personalidade que me perturba, minhas lembranças me transportam para a infância, quando ouvia meu avô reclamando dos impostos pagos sobre suas terras: “Nós ainda vamos ficar pobres por conta desta roubalheira” – dizia ele em alemão. Era o idioma no qual eu me comunicava quase que exclusivamente até os seis anos de idade, quando entrei na escola para ser alfabetizada, a duras penas, como dá para imaginar a partir da minha condição de pouco contato com a língua portuguesa até aquele momento.
Nada me faltou de essencial na infância, nem havia fartura tão pouco. Talvez tenha me faltado a presença da mãe, operária, quando o desespero de não aprender a tabuada me fez desejar o seu colo. Em lágrimas, eu suplicava que ela não fosse à fábrica, e que me ajudasse. Contudo, da janela da casa de minha avó, eu a vi se afastando. Ela precisava prover o sustento da casa, e fez bem, porque não dilapidou os bens materiais de meus avós, que hoje são sua segurança na idade avançada.
Minha mãe também agiu certo quando, nos meus 16 anos, disse-me que era hora de encontrar um trabalho. Lembro até hoje que estávamos na janela da cozinha de nossa casa. (Minha sina tem algo a ver com janelas, percebo agora, identificando pelo menos outros dois episódios marcantes em que elas estiveram bem presentes. Mas isto eu conto noutra ocasião).
Ser intimada a trabalhar me impôs uma sensação de medo: Será que eu daria conta? Como encontraria tempo para estudar muito como eu fizera até então para superar minhas próprias dificuldades de aprendizagem? Foi preciso fazer uma escolha: passar de aluna nota dez para um desempenho média oito no último ano do secundário e por toda a faculdade. Com isto encontrei tempo e energia para o trabalho.
Em meio a contas controladas pelo orçamento, passei a juventude cuidando do que já tinha, para poder adquirir algo mais, ao invés de repor o que se perdesse. Matemática simples. Psicológico complicado.
Não usufrui a leveza da juventude, que luto para resgatar agora na maturidade. Não guardo mais as melhores roupas para usar em algum momento especial, que poderá não vir, ou ao qual eu nem queira comparecer… Estou comendo primeiro a fruta mais vistosa do cesto, o bombom mais delicioso… Também quero libertar do armário as melhores louças para receber só a família num jantar frugal. Amanhã? Quem sabe!

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