Quando eu tinha pouco mais que uma década de vida, testemunhei a dolorosa separação de meus pais. Naquela época, além da dor de uma relação que terminava, de um marido e um pai que não viria mais para casa todos os dias, havia o estigma da mulher separada, que minha mãe também precisou carregar, somado à sua dor íntima e à necessidade de se mostrar forte diante dos filhos. Lembro que eu mesma me envergonhava de ser filha de pais separados.
A bem da verdade, não era sempre que aquele marido e pai vinha para casa todas as noites. Lembro até de uma noite de Natal em que meu pai só apareceu bem tarde, e de ter visto minha mãe à janela, libertando em dissimuladas lágrimas a sua tristeza e humilhação.
Sim, meu pai teve outras mulheres, sempre mais jovens. Na minha lógica de menina, eu julguei que fosse tão somente uma questão de beleza . Aquilo mexeu comigo, porque eu via perfeitamente onde minha mãe gastava o frescor da pele. Era para colocar comida na mesa e prover o essencial para a família – coisa que não passava muito pela cabeça e o bolso de meu pai.
Lembro que naquela época rezei a Deus pedindo que, quando adulta, eu ficasse mais bonita à medida em que o tempo fosse passando. Acrescentei na minha oração que nem me importava em não ser muito bonita quando jovem, porque os jovens normalmente eram bonitos na minha concepção.
Engraçado, outro dia, revendo umas fotos, fiquei pensando em tudo que Deus precisou fazer acontecer para que meu desejo, de alguma forma, se realizasse. Calma! Não tenho a pretensão de achar que fico mais bonita a cada dia que passa, mas a verdade é que me sinto bem mais lapidada. Meu cabelo está melhor do que na adolescência; consegui corrigir uma dentição que tinha problemas, minha percepção de moda e estilo melhorou; posso vestir roupas e sapatos bacanas; tratar da pele e do corpo com bons resultados.
Deus não me fez ficar mais bonita, quebrando toda a lógica da natureza, mas de alguma forma me atendeu, permitindo que a cosmética, a moda e a tecnologia em produtos, serviços e informação evoluíssem milagrosamente.
A vida é assim: precisa desejar profundamente, confiar, esperar e fazer o tema de casa direitinho, mesmo que o nosso sonho pareça coisa que só um milagre daria jeito.
Esta postagem foi publicada em 7 de junho de 2013 e está arquivada em Paralelas.


