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Esta postagem foi publicada em 21 de junho de 2013 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Memória

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Perco um amigo, mas não perco a piada. É que piada é muito difícil de encontrar!

MEMÓRIA

Dezesseis de junho foi um domingo movimentado para mim no que diz respeito a recordações. Primeiro, lembrei-me de um colega do 4º Ano Primário na Escola 1º de Maio, em Porto Alegre (era o correspondente à 4ª Série ou, agora, 5º Ano do Ensino Fundamental).
Chamava-se Fúlvio, um guri falador, usando óculos de aro redondo, cabelos geometricamente alinhados, repartidos no lado esquerdo da cabeça como era a moda. Era filho de uma professora que trabalhava no mesmo colégio. Devo ter sentado ao lado dele em duas ou três ocasiões. Mais do que isso, não recordo. Também, pouco lembro a respeito dele. Ou seja, teria ficado perdido nas brumas do tempo, a não ser por uma característica muito sui generis: o Fúlvio falava, exclusivamente, em morte.
Veio-me à memória uma tarde em que sua lenga-lenga disse “ah! eu me imagino um defunto fresco, no caixão, coberto de flores”. Hoje, talvez o papo ainda fosse desagradável para duas crianças, mas, em 1955, definitivamente, pelo menos para mim, foi aterrorizante ouvir essas coisas. Posso até imaginar uma intenção do colega em assustar-me e rir de mim (conseguiu). Ou, quem sabe ele fosse um sujeito à frente de nosso tempo e exercesse sua nascente criatividade num gênero literário muito lucrativo, as histórias de horror. Não seria o primeiro artista nisso. A Literatura está repleta de excelentes autores que trilharam o caminho dos assuntos macabros. Vai ver eu convivi com o surgimento de um gênio e, simplesmente, não reconhecendo essa qualidade, tenha me abandonado ao medo. Nunca mais soube dele. Fúlvio virou fumaça no tempo.
Estarão minhas lembranças sendo fantásticas? Não é a intenção. Porém, a continuação deste texto leva a um caminho que nos faz pensar.
Depois de rememorar o Fúlvio, abri a Zero Hora dominical. Tendo lido a reportagem com Aluizio Mercadante, Ministro da Educação do Brasil, e constatado que ele tem um probleminha com o futuro do subjuntivo do verbo “dizer” (ironia ou boicote do jornalista?), cheguei à seção do obituário. Então, aconteceu a segunda fase das lembranças. A primeira fotografia da página saltou-me aos olhos e eu pronunciei um nome: “Maria Luiza Roth”. Li o texto e, efetivamente, era ela, falecida aos 95 anos. Eu não a via há 56, mas, ainda assim, a reconhecera. Era a diretora da escola onde e quando conheci o Fúlvio, o morto fresco ali de cima. Permanecera viva (sem trocadilho) na minha memória durante todo esse tempo.
Mas a coincidência final veio logo em seguida. Foi a diretora Maria Luiza quem assinou o certificado de minha conclusão do Primário, na 5ª Série. Busquei-o dentre meus documentos para mostrá-lo à minha família e, nesse momento, senti um pequeno calafrio ao ver a data abaixo da sua assinatura: 15 de dezembro de 1956. Naquele dia, eu estava completando 12 anos.

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