Paralelas
Esta postagem foi publicada em 21 de junho de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Fogo e trégua

Alfredo foi um jovem que sempre apostou tudo em sua virilidade. Tinha um apetite acima da média para o sexo e em seu histórico não havia registro de falhas. Avançou com esta característica pela vida adulta, de forma que negar fogo lhe parecia efetivamente uma coisa que só acontecia com os outros.
A possibilidade de ter inúmeras parceiras acabou inviabilizando algumas histórias afetivas em que teria investido, mas que foram frustradas por suas constantes aventuras. O vigor físico fez dele um homem muito mais voltado à quantidade do à qualidade, além de torná-lo centrado no próprio prazer. Em sua constante troca de parceiras, não aprendeu que o egocentrismo sexual só é tolerado em relações eventuais e recentes, quando tudo é novidade e o jogo de posse e entrega clama por urgência.
Respaldado por sua exagerada autoconfiança, Alfredo era o rei das piadas que miravam nos menos afortunados pela virilidade. E foi assim que passou a se sentir uma piada, quando, com o avançar dos anos, o declínio sexual bateu à sua porta. Por preconceito e incredulidade, não persistiu em buscar recurso médico, tão pouco sentiu-se apto a iniciar tardiamente os jogos sexuais que, em suas antigas piadas, eram tratadas como “coisa de quem não dá no couro”.
Vítima dos próprios preconceitos, Alfredo viu azinabrar o casamento a que se entregara ainda em tempos de plena energia. A intimidade não construída naquela relação foi o telhado frágil que, mais tarde, cedeu às infiltrações da frustração e das cobranças veladas.
Os amigos não perceberam grandes mudanças em Alfredo, que seguiu a vida fazendo piada, focando agora nos gays, talvez confiando que o novo tema não se voltaria contra ele próprio em algum momento da sua jornada. Esqueceu-se, o Alfredo, de que a vida por vezes manda suas lições por estradas secundárias. Afinal, todos nós temos amigos, colegas, familiares… E não desejamos que sejam alvo de piadas, por qualquer que seja o motivo.

 

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