Do “Meu livro de citações”: Os amores mais interessantes de serem lembrados pela saudade são aqueles que praticamente nem aconteceram.
A CIVILIZAÇÃO PERDOADORA
Tenho minhas limitações. Dito assim, parece que as tenho bem poucas, mas a realidade, a dura realidade, mostra uma boa coleção delas. Tenho-as como todo o mundo tem. A gente só varia no tipo. Parecemos uma Pepsi da época de sua primeira fábrica brasileira, inaugurada em Porto Alegre em 3 de março de 1953 (do dia eu me lembro bem; a data, pesquisei) e então conhecida como Pepsi-Cola. Quando aquela bebida passou a circular no Rio Grande do Sul, em sua garrafa estavam impressas as palavras “qualidade” e “quantidade”. É isto aí: em termos de limitações pessoais somos uma velha garrafa de refrigerante: temos qualidade e quantidade. O que uma coisa tem a ver com a outra? Fundamentalmente, nada! Foi só uma pequena reminiscência da infância, servindo de ilustração metafórica às limitações.
Pois, entre as tais carências, uma das minhas é a dificuldade de compreender a cultura do perdão, tão difundida pelos meios de comunicação, livros e religiões, enfim pelo conhecimento popular. Ignoro se há, ou houve, alguma civilização na qual esse mandamento não exista, ou não tenha existido.
Questionando o assunto, longe de pregar o ódio e a vingança, expresso minha estupefação diante da filosofia do ato de perdoar. Todos nós aprendemos que perdoar é sublime. Conceder um perdão é praticamente atingir o umbral da santidade. E, cá entre nós, quem, depois de cometer um erro – e cometemos tantos, mesmo involuntários – não sente um alívio imenso ao ver a falha relevada, depois de tê-la visto revelada? São momentos de angústia e desespero que o perdão apaga. Mas, parafraseando Shakespeare, algo está a apodrecer na Dinamarca. Nem tudo é tão certinho assim.
Somos estimulados a perdoar, não importam as ofensas. Isso cria, porém, alguns paradoxos morais interessantes. Quando perdoamos, exercemos uma força infinita sobre os outros. Com uma simples palavra, livramo-nos de uma grande dor, a de consciência, mas isso nos torna vaidosos de nosso poder. Não há saída: ou punimos ou a vaidade nos engole e, como vocês sabem, vaidade não é uma coisa boa.
Pensam que a coisa para por aqui? Engano. Raciocinem comigo. Perdão ilimitado, como esse estimulado pela sociedade, além de produzir a vaidade ilimitada, significa que não haverá mais necessidade de restrições a qualquer ato, pois todos eles serão perdoados. Perdão significa volta ao estátus anterior à ação que o promove. Logo a consequência será o famoso “liberou geral”. Seremos uma civilização extremamente vaidosa de nosso poder sobre nossos confrades e viveremos na licenciosidade total.
Confesso não me animar muito com a perspectiva. Exceto, claro, naquela parte correspondente ao perdão automático das minhas dívidas, mas isto é outro assunto.
Plínio Zíngano
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