Fátima estava terminando seu casamento de nove anos e decidiu que o melhor a fazer era ela mesma alinhavar uma nova relação para o seu ex. Afinal, ninguém melhor do que ela sabia do que ele precisava. Além disso, ela não queria que ele ficasse no pé dela, e o achava um tanto inapto a conquistar uma mulher a curto prazo, afinal ele só pensava em trabalhar, não tinha sex appeal, nem paciência para ser um bom pai.
Começou a passar em revista o perfil das clientes do salão de beleza que dirigia, e não demorou a vislumbrar um nome. Tudo isto facilitado pela tendência que a maioria das mulheres tem de desabafar intimidades nestes ambientes. Renatinha era a pessoa ideal para o seu ex – pensou Fátima.
Ao contrário dela própria, que se recusava a viajar de avião, Renatinha vivia procurando pretextos para uma rápida escapada, coisa que as viagens aéreas facilitam muito. E mais: Renatinha não desejava ter filhos, estaria sempre disponível para se encontrar com o ex de Fátima, que nunca tirava férias, apenas podia esticar finais de semana nas viagens profissionais, o que ele fazia com freqüência, já que Fátima passava os sábados até tarde no salão, e aos domingos amava dormir um pouco mais, pois deixava as crianças na casa dos avós já no sábado, e só as reencontrava no rotineiro almoço de domingo, quando, na maioria das vezes, o marido estava de volta.
Esta sempre foi a mágoa de Fátima. Ela queria férias de um mês (em janeiro, quando o movimento do salão decaía), para poder viajar de carro com o marido e os três filhos. Mas a atividade dele não permitia estas longas ausências, uma vez que a cada semana estava numa parte diferente do país, visitando os clientes da praça, como cabe a um gerente comercial.
Há alguns meses, o casamento perdera definitivamente a graça para Fátima. Ela precisava de um marido que tirasse férias de um mês, que fosse um pai amoroso e presente para compensar, inclusive, a total indisponibilidade dela aos sábados. Afinal, tinha só 39 anos, retocara com plásticas as marcas da maternidade (para isto tirara férias de um mês por dois anos consecutivos) e vivia impecavelmente produzida, com as facilidades que o salão de beleza lhe proporcionava.
Assim sendo, na cabeça de Fátima, o que ela precisava, agora que o ex já tinha concordado com a separação, era evitar que ele se tornasse uma pedra no sapato, que continuasse pagando as despesas dos filhos e que não implicasse com o desejo dela por uma vida com novo companheiro: Renatinha era a solução – estava convencida. E foi assim que promoveu a aproximação da moça com seu ex.
O rápido entrosamento entre eles só deu a Fátima a certeza de que ela era uma talentosa articuladora. Decorridos alguns meses, ela continuava sua rotina de trabalho, com pouco tempo para encontrar um companheiro que, entre outros predicados, pudesse tirar 30 dias corridos de férias.
Seu ex continuava pagando as despesas das crianças, e tinha até se tornado melhor pai – de bem com a vida. Na verdade, pouca coisa mudara na vida dele, já que continuava se encontrando com Renatinha nas esticadas de final de semana pelo Brasil afora, só que agora com o conhecimento e a bênção da ex.
Esta postagem foi publicada em 19 de julho de 2013 e está arquivada em Paralelas.


