Paralelas
Esta postagem foi publicada em 30 de agosto de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Sobre médicos e cabeleireiras

IngeHá profissões que se colocam em flagrante vantagem sobre outras. Médicos e cabeleireiras, por exemplo.
Se você já formou um prejulgamento de que “os doutores” ficam em vantagem, é bom rever seus conceitos.
Já sei, você formulou um juízo de valor, considerando que os médicos são capazes de salvar vidas.
Esqueceu de considerar que uma cabeleireira competente é capaz de devolver à vida muitas mulheres que já estavam mortas. De desgosto. Com pontas duplas, fios arrepiados e – horror dos horrores – brancos delatores. Brincadeira à parte, seguimos nas ponderações:
Ah, mas os médicos ficam lá, confortavelmente sentados nos seus consultórios – você poderia argumentar – enquanto as cabeleireiras passam o dia em pé, entre tesouradas, secadores e vapores de produtos químicos.
Ok, e os médicos que transitam entre macas de pacientes agonizantes nos corredores de hospitais superlotados, impotentes diante da falta de recursos para exercerem seu papel?
Você ainda pode alegar que as cabeleireiras estão trabalhando cada vez até mais tarde, enredadas pelos demorados processos para alisar rebeldes melenas.
Ah é? E os médicos que não têm hora para serem chamados a fazer um parto, uma anestesia, salvar alguém do infarto, minimizar eventuais sequelas de um AVC com a necessária intervenção urgente.
Bom, mas um médico pode cobrar milhares de reais por uma cirurgia, em trabalho que leva algumas horas apenas. Alguns, é bem verdade.
Ok, mas as cabeleireiras ainda não precisaram se unir sob o teto de um “plano de beleza”, que se não satisfaz a muitas da categoria, tão pouco pode ser dispensado pela maioria.
Mas a grande vantagem de cabeleireiras sobre médicos está mesmo é em sua “sala de espera”. Como assim?
Dificilmente você ouve, na antessala do médico, conversas amenas sobre a cor do cabelo de uma, o corte adotado por outra, o nome da cabeleireira mais bem cotada, ou daquela a quem é um perigo entregar a cabeça. Fala-se, quase sempre, sobre os males de cada um e de todas as pessoas próximas. Tipo: O que te traz aqui? – Ih, nem te falo…
Já nos salões de beleza, a conversa pulveriza, e com freqüência um caso e outro de doença vem à tona, porque sempre há alguém próximo nesta situação, nem que seja uma gripe, que, aliás, deixou de ser coisa simples. Aí é que está a grande desvantagem dos doutores. Se a secretária não recebeu bem, se o médico errou no diagnóstico, se nem tocou no paciente, se foi considerado ríspido, se a consulta foi breve demais, se não havia horário para o plano de saúde – só para consulta particular, se costuma deixar o paciente tomando chá de cadeira… O assunto ricocheteia, faz eco, e o conceito profissional se forma ali mesmo, entre xampus, escovas, tesouras e esmaltes.
Por que este assunto abordado de forma tão insólita? Sem dúvida, inspirado nos amplos debates que se instauraram com a importação de médicos para preencherem lacunas, verdadeiras crateras, deixadas proliferar na saúde brasileira.
E para filtrar ao final de tudo: depois de conhecimento em medicina, o que o paciente mais espera de um profissional médico é ser acolhido. Quem busca seus serviços, na maioria das vezes está fragilizado, e não há como abordar o mal físico sem lançar um olhar sobre os clamores da alma. Dez minutos e distanciamento glacial não dão conta disso.

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