Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Técnicos de futebol e professores sofrem o mesmo preconceito: se os seus pupilos são desinteressados ou incompetentes, a culpa é deles.
SANTO DE BARRO
Sempre tive admiração especial pelos portugueses. Sei que as coisas envolvendo pessoas de uma nacionalidade, generalizando características, do tipo “as mulheres de tal país são as mais belas do mundo”, “os habitantes de tal ilha são extremamente corajosos”, essas coisas, itens prontos para fazer parte dos versos de um hino nacional, são afirmações muito genéricas e imprecisas.
Cada vez, ao expressar minha admiração pelo povo da terrinha, vejo muitos alunos sorrindo. “Afinal de contas”, pensam, “gostar de portugueses, não sei não, estamos bem arrumados!”. Porque, todos sabem (olha aí, de novo a generalização, gente!), os portugueses não foram aquinhoados com a mesma esperteza que nós, os brasileiros.
Mas explico as razões da minha simpatia. Não que devamos justificar nossos amores. Entretanto, neste caso, havia uma razão muito lógica: os portugueses foram os bam-bam-bans dos mares “nunca dantes navegados”, se me permite Camões. Imaginem vocês, aventurar-se pelos oceanos desconhecidos – bem, não tão desconhecidos assim, segundo parece – naqueles naviozinhos, praticamente uma casca de noz, para usar uma expressão popular. Exigia, sim, inteligência e grande coragem! E foi isso o que me levou a abrir o meu voto em favor dos portugueses. Os espanhóis, outro povo de primeira linha lá no Século XV, coloquei em segundo lugar. Claro, eles também eram bons. Disputaram a conquista do mundo pau a pau com os lusitanos. Porém, na apuração das vantagens, imitando alguns juízes do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão, aqui, na antiga colônia, não me dei por impedido e fui favorável aos portugueses. Acho compreensível. A língua, os costumes; minha cidade natal, Porto Alegre, é conhecida pelo epíteto de “porto dos casais”, por ter sido povoada, inicialmente, por uma turma de casais açorianos. Enfim, agi, mais ou menos, como – novamente citando – alguns juízes do STF. Ou seja, fui para o lado a que mais minha gratidão mandava ir.
Tudo estava numa boa até eu começar a ler Inquisição: o reinado do medo, do inglês Toby Green. O livro aborda a história da Inquisição, justamente na Espanha e em Portugal. Escrevi nessa ordem, porque ela apareceu antes na Espanha e, depois, em Portugal, embora já existisse antes, como processo de purgação religiosa em outras nações. A especificidade do livro de Green se deve ao uso da Inquisição, naqueles dois países, como aparelho de repressão estatal, e não mais, simplesmente, religiosa. Ao longo do tempo, fornicação, cobiça, roubo, esbulho, tortura foram praticados à sombra de uma instituição nojenta já de per si, tornando-a mais asquerosa, pois, com a desculpa de zelar pela pureza de sentimentos religiosos, as máquinas oficiais espanholas e portuguesas, incluindo-se, aí, os próprios reis, locupletaram-se, criando as mais abstrusas justificativas por seus atos.
Para mim, foi frustrante saber que Portugal, meu herói desbravador dos sete mares, também caprichou na crueldade. Assim, setembro termina com mais esta grande decepção. A outra? Bem, falando de abstruso, vocês viram o STF?


