A água sempre me causou medo e fascínio. Um certo estranhamento também, talvez por ser taurina (signo de terra) e dragão (fogo) no horóscopo chinês. Ou quem sabe por ter tido o choro arrancado à força sob água da torneira na maternidade, já que nem as clássicas palmadas na época conseguiram abrir o sopro da vida em berro a pleno pulmões que só jorrou assim, à força.
Pode ser por isso que nunca consigo olhar o mar ou um rio sem traçar uma analogia com a própria vida que corre e escorre todos os dias, também lágrimas, que hoje eu não economizo. A existência pode nos conduzir rio abaixo a qualquer momento. Quando menos se espera, lá estamos nós remando contra a maré ou nos deixando levar, impotentes diante da correnteza.
Às vezes é preciso remar forte e intensamente para seguir em frente; às vezes, é preciso recuar; e às vezes é preciso atracar para o bote da vida não virar do avesso e nos afogar. Nem sempre sabemos o melhor caminho e podemos ser surpreendidos por uma grande pedra no meio do rio e sermos arremessados contra o barranco.
Levados pela força que move essa energia, é comum pensarmos que dominamos o meio e as situações em que estamos inseridos. Para qualquer um de nós, o rio vai seguir seu curso, ignorando nossos desejos e vontades. Nas contrariedades e adversidades é que deveríamos recuar, remar mais devagar, deixar o barco e tudo o mais simplesmente ir.
“Navegar é preciso, viver não é preciso”, já dizia Fernando Pessoa, precisamente anunciando a ordem natural das coisas. A família, um filho, um amor… quando menos se espera é preciso deixá-los navegar, deixá-los ir, perdê-los para sempre ou simplesmente não tê-los mais sob o nosso olhar que transborda em choro a alma trincada de dor e saudade.
Há dias em que tudo é impreciso e somos subitamente empurrados para fora do barco. Hora de recuar, de atracar, de silenciar. Embarcação à deriva e seja o que Deus, o Universo ou o acaso quiserem. Grito sem eco, sem resposta, hora de parar de remar.
*Dedico a crônica de hoje aos amigos que promovem o rafting em Três Coroas, sábios no respeito à natureza e cuidadosos com a vida que, assim como nos empurra rio abaixo, nos deixa atracar em segurança ou ficarmos à deriva, exatamente como me sinto agora ao lerem a minha coluna, rumo a alto mar, água quente e cristalina longe daqui, na companhia amorosa de amigos, sem remar contra a maré.



