Paralelas
Esta postagem foi publicada em 14 de novembro de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Casa das memórias

(Este conto foi escrito por mim em agosto para o Concurso  Literário Jornal Panorama/Faccat)roseli santos

Quando derrubaram a primeira parede, foi como se tivessem me perfurado a pele profundamente com a ponta de uma faca. Em seguida, foram retirando as janelas, as portas e mais outra parede. Parecia rápido, embora tenha levado alguns dias, uma semana talvez.
Cada pedaço arrancado da casa que abrigou a nossa vida, amputava parte da história que construímos.  Esqueceram de me avisar que anos desmoronam em segundos. Basta derrubar a primeira parede e tudo desaba rapidamente.
Quando já não restava muita coisa para vir abaixo, demoliram o telhado, o muro e o restante das paredes que já não sustentavam mais nada. Restos de tijolos, madeira, telhas e entulho. Resumo e sobras de uma existência em família. Testemunho do que não existia mais em forma de matéria, presença física que comprovava nossa passagem por ali.
Agora, foi como se tivesse levado um tiro no coração. Certeiro e fatal.
– “Morra!”, gritava uma voz alucinada me dizendo para desistir, sumir, virar pó como as ruínas da casa desabada.
– “Já morri, já matei tudo isso dentro de mim”, berrei para mim mesma, espantando a dor, aquela coisa perfurante que nos mata, sim, todos os dias, quando já não resta mais nada a vir abaixo.
E o que fica quando nada mais pode desmoronar é essa sensação oca, esse temor que corrói e implode no estranhamento de si mesmo. Mas temer o quê, diante do vazio? As histórias e as lembranças permanecerão dentro deste corpo sem alma, mas quem irá ouvi-las? Entendê-las? Quem se deslumbrará com as fotos amareladas jogadas no fundo de uma caixa de papelão?
Ontem mesmo, ninguém reparou naquele terreno plano, limpo, sem qualquer vestígio do que havia ali. Nem os vizinhos lembravam mais de como era a antiga construção, abrigo de tantas vivências, coloridas pelos gritos das crianças a correr no pátio entre as árvores que também foram derrubadas.
Quem se recordará do que me diz respeito? Quem perguntará quem sou, de onde vim? Quem enxergará o vulto que me acompanha há dias silencioso, invisível, zelando pela ruína em que me transformei?
Hoje, e parece que foi ontem ou anteontem, nem sei, vi um edifício se erguendo por ali. Um, dois andares e, assombrosamente, em dias, já havia o esqueleto de um grande prédio de apartamentos ganhando forma, subindo aos céus. Desta vez, nem tive tempo de respirar. Entre tijolos e cimento, o vulto que me acompanha sorriu e me abraçou, dizendo:
-“Senta aqui, e me conta uma história”.
Desde então, a cada encontro marcado, há sombras que nos acolhem na casa das minhas memórias. Aos poucos, dia após dia, é possível ver uma luz fosca tentando se pronunciar por um instante até se transformar em um facho brilhante penetrando as frestas das paredes. Agora, tudo é claridade. A luminosidade aconchega e aquece a casa para receber o vulto que sou eu antes que o sol volte a se pôr, e a noite da vida chegue novamente.

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