Para quem consegue ser grato pelas bênçãos que recebe na vida, ou que tenta se colocar no lugar de outro que enfrenta desafios, é impossível já não ter se sensibilizado com a missão que têm os pais de filhos com severas necessidades especiais. É preciso enfrentar muitas limitações de liberdade, sublimar o preconceito alheio, criar situações especialíssimas para oferecer o cuidado necessário, muitas vezes driblando dificuldades econômicas e a falta de estrutura de apoio na sociedade (pois agora não querem acabar com as APAES?). Acima de tudo é preciso muito amor, fé e coragem.
Mas a propósito de quê abordei este assunto? Motivada pelo conto que escreveu a artista plástica taquarense Elisabeth Sauer, no livro Contos Contemporâneos 2013, editado como fechamento da Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche, que ela frequentou com outros dez autores. Na obra, que está à venda em Taquara no Bazar Salazar (Galeria Comassetto), a taquarense é autora de três contos, e um deles me fez ver, mesmo que minimamente, como funcionam as emoções de uma mãe (ou de uma família) dedicada a um filho com necessidades especiais. Elizabeth perdeu, neste ano de 2013, o filho Lucas, que faleceu com 28 anos, e que a inspirou em um dos textos. Reproduzo, a seguir, o que é pura sensibilidade, indizível…
Indizível
Elisabeth Sauer
Gaivotas sobrevoam a praia. Um resplandecente dia de verão. Veranistas tomam banho. Ao longe navega um barco a vela. No horizonte, uma grande embarcação em alto-mar. Vejo este panorama do restaurante. Há muita gente neste local. Alguns almoçam. Outros aguardam ser atendidos pelo garçom.
Ele come batatinhas fritas. Mal consegue espetá-las com o garfo. Às vezes deixa cair uma que outra. Mastiga pouco e engole vorazmente. Satisfaz a ansiedade ao engolir com rapidez o alimento. Apresenta dificuldades, mas demonstra querer vencer esse desafio. É auxiliado por familiares. Situação inevitável de ajuda.
O jovem observa todos, parece um detetive. A sua memória auditiva e visual está sempre em alerta. Enxerga uma mulher que lhe sorri. Fica inerte. A boca entreaberta. Entreolham-se. Ele continua a refeição. Os olhos estão arregalados. Cheios de admiração. Ela acena, está sentada a pequena distância. A mãe do rapaz intercede e gesticula com a mão dele.
A loura bronzeada faz comentários ao belo moço de olhos azuis. Cabelos de surfista! Comunicam-se por sinais. Ela movimenta uma das mãos e levanta o polegar direito para cima.
O jovem dá uma gargalhada. Baixa a cabeça. O sorriso dele comove. Transborda de emoção. Talvez seja de felicidade por estar ali, incluído na multidão. Regozijo imensurável. Indizível com palavras.


