Do “Meu livro de citações”: O principal objetivo da literatura e da cinematografia de terror é ressuscitar os mortos e matar os vivos. Tudo gira em torno disso.
CENSURA
Recebi, na semana passada, um emeio (a Academia Brasileira de Letras oficializou esta palavra para “correio eletrônico”) mostrando um filminho impressionante. Falando assim – filminho – parece tão simpático, não é? Mas, nesse caso, simpatia não era a tônica. Era pavor puro, não aquele de cinema, mas o tirado da realidade mais crua possível. O diminutivo ficou por conta da duração, 50 segundos apenas.
O cenário, uma estação ferroviária. Na Índia, suponho, a dar crédito a algumas pistas visuais. As imagens foram capturadas, provavelmente, por um telefone celular, pois são de péssima qualidade técnica. Mostram um homem acocorado no teto de um vagão dum trem elétrico parado na plataforma de embarque. Dois outros homens conversam com ele, agarrados à janela do vagão. Então, o ator principal, interpretando o definitivo papel de sua vida, começa a caminhar e, displicentemente, levanta a mão direita, tocando o fio que fornece energia ao trem. Como nos desenhos animados, veem-se e ouvem-se duas descargas elétricas e o corpo, já fulminado, desaba no teto, em chamas.
Leitores, terei eu transformado minha coluna num circo de horrores? Não, longe disto! O tema de hoje é a censura. A censura representa a grande forma de o ser humano mostrar-se superior aos semelhantes. Proibindo alguém de tomar conhecimento de algo ou expressar-se sobre alguma coisa, consegue-se impedir mudanças de pensamento e ação. Essas duas possibilidades têm o dom de provocar mudanças, nem sempre desejadas por quem está no poder. Quando censuramos, mostramos quem manda e preservamos o estátus.
Mas, o que tem isso a ver a com o filme mencionado acima? Filosoficamente, tudo. Até alguns anos atrás seria impossível vê-lo. É que jornais, revistas, televisões e cinemas não exibiam fotos e filmes considerados chocantes ou ofensivos à moral. Existia uma casta (já que falamos em Índia e é moda) de pessoas especiais: aqueles que tinham permissão de julgar quem poderia ver o quê. Eram os censores. Sempre me perguntei se aquilo que me proibiam de ver por ser prejudicial à minha formação não os prejudicava também. No fim, as únicas vítimas a sofrer por olhar coisas tão degradantes eram eles próprios. Entretanto a internete revolucionou tudo da maneira mais radical possível. Hoje, se quisermos assistir a qualquer coisa, é só procurar nos iutubes da rede. Cada um de nós se tornou o próprio censor. Ao contrário das baboseiras ditas por quem amava a restrição, nada piorou. Nem antes era melhor, nem agora é pior.
Assim mesmo, eu gostaria de agradecer aos antigos censores por me protegerem dos perigos da eletricidade durante tanto tempo. Vocês foram demais!
Plínio Zíngano
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